15/02/2010
14/02/2010
13/02/2010
Usar o instinto
“…há sempre algo que nos impede de fazer o que achamos que não devemos fazer… como que, dentro de nós, houvesse uma espécie de censura que velasse pelas nossas acções… o que podemos e o que não podemos fazer é algo que, primeiro, vai à loja da censura e só depois segue para fabrico... a forma final do produto é que poderá ser diversa daquela que foi projectada... onde nos leva tal atitude?... que castração nos provoca semelhante sujeição?... porque não fazemos apenas o que nos apetece fazer?... o que é isso de consciência?... é uma espécie de balança com uma série de pratos onde são pesados todos os prós e os contras daquela acção planeada... porém, porque razão agimos de imediato, sem pensar, em momentos de crise duma forma a que chamamos de instinto?... ou será que mesmo antes de agir instintivamente, a loja da censura funciona mesmo sem darmos por isso?... será que há, na mesma, um pesar na balança?... saltamos de imediato para o lado para evitarmos ser atropelados por uma carro mesmo sem vermos que podemos cair na valeta cheia de água suja da sarjeta… fugimos rápidos, em caso de incêndio por exemplo, da varanda para a rua sem olharmos à altura que nos separa dela e sem pensarmos que podemos partir uma perna… porém, no dia a dia das nossas acções habituais de vida em que o instinto não é preciso, as nossas atitudes são “pesadas” antes de as tomarmos, como se de uma poção mágica se tratasse e fosse preciso tomar a medida exacta… então, hesitamos antes de agir e somente depois actuamos… as nossas escolhas devidamente pensadas tanto podem dar para o certo como para o torto… não há maneira de sabermos se aquela decisão, ainda que devidamente gerida e equacionada, vai resultar em pleno... mais tarde é que saberemos o resultado... na verdade e a experiência mostra-nos isso, quando usamos o instinto, verificamos o resultado da acção então utilizada, de imediato, quer seja bom ou mau… também, de imediato, ficamos felizes ou infelizes com a opção tomada... já quando apenas a tomamos depois de devidamente ponderada a questão, somente muito depois veremos o resultado… e até podemos viver angustiados aguardando o desfecho… será que fiz bem, será que fiz mal?... e agora?... bem, só tenho que aguardar e esta espera, esta expectativa provoca angústia, provoca danos, provoca dor... que faço?... escrevo um texto sobre que tema?... bem, vamos lá ver... penso, repenso e nunca mais me surge a inspiração para desenhar algumas letras sobre um tema que nunca mais se faz luz em mim… então, de imediato, começo a teclar instintivamente… saiu o que acabaram de ler... ao mesmo tempo que escrevia ia vendo o resultado de imediato daquilo que surgia no monitor... não houve angústia… não houve dor… utilizem o instinto o mais que puderem… vão ver que, geralmente, dá certo... também o pior que poderá acontecer é terem de perder tempo a ponderar a questão... mas será que ponderar é assim tão mau?... não sei, a decisão é sempre individual... façam o que vos aprouver... façam o que vos der na real gana... sejam felizes nem que para isso seja preciso chorar um pouco... às vezes é o medo de chorar que nos impede de avançar… porém, quase sempre vale a pena… é que umas quantas lágrimas ajudam a clarificar a situação e o panorama, após o choro, é quase sempre um pouco mais claro!...”
12/02/2010
11/02/2010
Amar como o vento
"...Em cada relação que começa, a vida e o amor renascem. A paixão coloca cada pessoa num ponto alto e excepcional, inevitável e imperdível. Gostosamente. Mas as pessoas no seu melhor vêm depois, às vezes muito depois, quando se chora e luta, quando se aceita e se resiste, quando se constrói e quando se acredita. As verdadeiras relações, os grandes amores são sempre virtuais. Não por serem irreais, antes por serem imateriais, apesar de nos darem a ilusão de um corpo, de um suporte material que tocamos e possuímos, que acreditamos nosso, real, físico, material. Sentimos amor, quase conseguimos tocar, agarrar essa sensação. Dizemos convictos que é real. Olhamos o outro nos olhos e parece real, parece que o outro ali está e nos ama mais que nós... Mas ver, sentir, tocar, são formas de aceder ao amor, ascensores, facilitadores. Difícil mesmo é planar. As relações são feitas de ar, planar. É no vento que se ama. Talvez ser o próprio vento, e não a folha. Vê-se melhor o que é amar quando é difícil amar, aceitar que é sempre mais do que improvavelmente, um esforço, um desejo, um empenho pessoal em algo que materialmente não existe, não é palpável nem mesmo se sente. Nunca se ama realmente, a realidade do amor é nunca ser real. Virtual. No dia a dia, corpo a corpo, sonha-se o amor, sonha-se um amor virtual, que se não for virtual não é amor. Virtual porque não depende da presença do outro, da aparência do outro, do comportamento do outro. Um amar que perdura e se sustenta (Vento) mesmo quando não vemos o outro. Amar é memória, antecipação e crença profunda em memórias que hão-de vir. Virar a cara a quem nos vira a cara, sabemos todos que é real, bem concrecto, mas não é amar. Ama-se mesmo quem não nos ama e nos quer deixar. É na paciência, na persistência que se mede o amor. Amar é escolher amar. Depende de quem ama e não de quem é amado. Depende do esforço e disponibilidade de quem ama. Ninguém merece ser amado, porque ninguém pode deixar de merecer ser amado. Não depende do mérito, não depende do comportamento, não se vê nem se comprova. Posso ter que silenciar, posso ter de partir... vai comigo o amor..."
10/02/2010
09/02/2010
Resto
“…deixa-me dizer-te o que me vai na Alma… deixa-me contar-te o que sinto dentro de mim e mesmo fora de quem sou… dir-te-ia quem sou e o que não sou… mas não consigo mesmo que tente dizer-te o que este meu ser sente… é uma espécie de ausência de mim mesmo, uma dormência velada que foge de mim em loucura forjada… quero entender quem fui, quem sou e apenas e somente consigo querer dizer, porque contar, não vou poder… deixa-me, no entanto, dizer-te quem não sou, dizer-te o que não consigo ser e para isso já tenho forças dentro de mim para te contar o meu não e o meu sim… contar que não sou quem gostaria de ser porque o que quer que eu pudesse ser não seria, por certo, aquilo que vive no meu coração… dizer-te o que me vai na Alma seria fácil talvez se, com calma, pudesse entender a sua própria forma… mas, nestes casos, não existe qualquer norma que possa delinear um simples esgar que seja que possa gritar o que ela deseja… mas sei que ela não é o que ela gostaria de ser porque o que quer que ela pudesse ser não seria, decerto, o que mora em algo que nunca fenece… poderia, pois, dizer-te mil coisas que nenhuma seria a verdadeira… poderia pois esconder-te mil coisas que nenhuma delas estaria oculta porque me sinto aberto… deixa-me dizer-te, porém, que tudo o que vires em mim mais não será do que a imagem de alguém que não consegue ficar aqui, alguém que quer sempre ir mais além… uma meta que persigo a todo o momento, sem medo nem ressentimento… uma ida em frente na busca do exacto momento em que, sereno, coeso e firme sinta que sou o que do amor pleno em mim restou… ”
08/02/2010
07/02/2010
06/02/2010
Provar
“... não existe forma de se provar ao ser que amamos que o amamos... não há sinais, nem falas, nem gestos, nem toques, nem palavras... não existe nada que possa significar ou ter o sentido de dizer e provar ao ser que amamos que o amamos... se não existe então forma de o fazermos, como podemos provar ao ser objecto do nosso amor que o amamos?... não podemos provar!... e não podemos provar porque não existe forma de o fazer, logo só o conseguimos amar se na verdade o amarmos... e é amando-o nas mais pequeninas coisas que, sem provar, lhe vamos dizendo que o estamos a amar... é preciso que o ser que é amado sinta que é amado e essa é a única forma desse ser ter a certeza que é amado... quem ama não pode provar que ama mas quem é amado sabe sentir que o é... logo, a forma de provarmos que amamos o ser que amamos é este ser sentir que é amado... e só este ser que é amado saberá entender a verdade do nosso amor... e então, aí sim, ele saberá que é amado nas mais pequeninas coisas que fizermos, que dissermos, quando tocamos, quando gesticulamos, quando lhe enviamos um sinal, um olhar, uma forma do nosso próprio estar que nos é peculiar e único quando estamos a amar esse ser... o ser amado saberá que o é mesmo que quem o ama não o consiga provar, nem metafórica nem fisicamente... amamos com o nosso sentir, com o nosso coração, com o nosso corpo e com a nossa Alma, mas todos estes elementos são refutáveis, logo só o outro, quem é amado, saberá distinguir do nosso sentir, do nosso coração, do nosso corpo, da nossa Alma, os elementos comprovativos do amor que por ele nutrimos... como sempre disse, amar é dar, logo só quem recebe é que sentirá essa dádiva... é pois, dando-me-te por completo, que te amo... é pois, recebendo-me por completo que sentirás o meu amor...”
05/02/2010
03/02/2010
02/02/2010
Perdurar
"... e o amor não se esgota nos momentos em que os amantes se encontram... o amor perdura para além deles, dos momentos e dos próprios amantes... o amor fica em cada um como uma marca no tempo que vai para lá do tempo em que foi... o amor vai com cada um e reaje ao menor sinal de memória... reactiva-se a si próprio quando já lá não está, naquele momento em que se ama... eleva-se para além da sua meta e tenta chegar ao momento seguinte, momento esse que não se sabe se vai existir mas que se deseja e do qual se sabe apenas que será um novo momento... o amor não se esgota no momento em que os corpos se esgotam e descansam... o amor vai além desse esvair porque se não for nunca será amor... o amor não se esgota no peito de cada um porque continua na memória de ambos... o amor é isso, é saber que não foi só e apenas aquele momento... o amor prolonga-se a si próprio para além de si mesmo e daqueles que o vivem... o amor está para lá do próprio amor..."
01/02/2010
28/01/2010
Estrelas
“…deleito-me no leito de seda feito num sonho perfeito em que sem jeito me sinto vogar em teu peito… supero a minha ânsia de te tocar, de te embalar nos meus braços, soltos, livres, sem laços e passo para além do sonho em que vagueio na penumbra do teu quarto no qual nunca me farto de pairar e para ti olhar… e sinto-te plena de vida e de tudo o que quero alcançar… e sinto-te plena de tudo o que em mim pulsa sem parar… deleito-me tão-somente por te ver, ao ouvir o teu respirar… sei que teu ser pleno de vida me envolve na seda do sabor da minha ida como no amargor da minha partida… e em cada momento que me envolve, momento que a mim devolve todo o sentir que me percorre, eu sei-o pleno de amor, de ternura, de sabor, de doçura… e esse sentir, e esse saber ou esse sabor, bastam-me para voar de novo em pleno e suave voo em asas que não ouso usar mas que preenchem o meu modo de te amar… e o sonho vagueia de novo, nas noites de luar ou numa de lua nova que faz com que as estrelas te venham espreitar…”
27/01/2010
26/01/2010
Enlace
“…olho-te e toco-te ao de leve… num gesto suave, lento, doce… olho-te e sinto o perfume da tua pele no momento em que nos aproximamos um do outro… olho-te e toco-te de novo… num toque em que se sente o calor da tua face tocar a minha… é o beijo que se torna desejo… olho-te e vejo-te como nunca te houvera visto… e não resisto a colocar um abraço num enlace que espero perdure uma eternidade… naquele momento vivo o momento, mais um dos muitos momentos que se vive entre o anterior e o seguinte… segue-se o toque das mãos que se dão e se movimentam num bailar de vai e vem enquanto os passos se movem em compasso… e os corpos seguem o caminho do instinto… sossegam ao chegar… e de novo te olho num novo e delicioso olhar… e de novo te toco ao de leve num doce e suave acariciar… os corpos ofegantes emitem sinais de alerta para o juntar dos lábios num delicioso sentir de emoções que emergem da alma para a pele… e os sentimentos tornam-se actos… e os actos tornam-se vida de forma sentida em desejo contida no culminar do ser, do sentir, do estar, do amor que se recebe, do amor que se dá numa troca pura de entregas mútuas que se confundem numa só…”
25/01/2010
24/01/2010
Nunca te falei de amor
“... nunca te falei de amor... tenho falado imenso sobre como amar ou sobre o que é amar ou sobre a diferença entre o amar e o gostar... tenho falado muito sobre como é que sabemos quando estamos a amar, quando sabemos o que é amar... como é amar, porque amar é o único caminho... mas nunca te falei de amor... nunca te falei desse sentimento lindo que me envolve numa capa protectora e me faz sentir feliz e bem disposto... nunca te falei desse sentimento tão nobre e tão belo que nos faz sentir o principe dos contos de fadas... nunca te falei de amor apesar de já ter falado tanto de como amar-te... é fácil amar-te... é bom amar-te... é tão doce saber que te amo, que te estou amar como é doce saber que me amas, que me estás a amar... é tão simples e tão perene o saber que amamos, que nos amamos, que somos um só apesar de formados por dois seres distintos... é tão bom amar-te... tão simples amar-te... tão doce saber-me amado... pois, mas nunca te falei de amor... do que é o amor, de que é que ele é feito e do que é que ele nos faz... como tenho dito, quando falo de amar, amar é sofrer, por isso e em primeiro de tudo, o amor é dor... é uma dor que nos preenche o peito e se alastra pela alma adentro como se de uma doença se tratasse... depois, não tem cura e a febre sobe e o amor recrudesce e enobrece quem ama... o amor é o fruto do acto de estarmos a amar... por isso, o amor dói... é como se fosse um parto com dor, quando se ama... do acto de amar nasce o amor e desse nascer, dessa alvorada de luz, a dor povoa-nos e cerca-nos para o resto das nossas vidas... amar é tão simples, tão fácil, tão bom, tão doce... é apenas doarmo-nos ao outro numa entrega total e sem esperar nada no retorno... daí que seja fácil pois dar é apenas uma acção... o amor é o que nasce, o que vem, o que surge dessa acção, dessa atitude de dádiva... e, por isso, dessa dacção, dessa entrega, algo sai de nós, algo se desprende de nós e é esse algo que transforma o acto de amar numa dor profunda, numa dor quente, numa dor sem dor mas que dói... e é nessa dor que sentimos que se ama, é no sentir dessa dor que sabemos que estamos a amar e a sermos amados... é nessa dor que se nos revelamos um ao outro com a fusão de dois seres num só... e nessa fusão, o amor é... e ele só o é, ele só existe, ele só é real se nos fizer doer... e quão purificadora é essa dor, quão sereno é esse sofrer, esse acto de querer, esse acto de receber já que amar é dar, o amor é o que se recebe e nesse saber que temos algo que nos é dado pelo outro, sabemos porque a dor, a partir daí, se instala, vibra, arrepanha, angustia, inebria também, anestesia-nos e a dor se transforma, por aceitação, na mais doce forma de amarmos... se não sentires que te dói então é porque não amas... bendita, pois, a dor que me invade, que me transcende e me faz saber o quanto te amo!...”
23/01/2010
22/01/2010
21/01/2010
Dizer
"...Porque te sentas de pernas cruzadas sobre a nudez do teu silêncio? Para te ouvires desejando não ouvir o que não és capaz de pensar? Porque te sentas de costas voltadas à treva se da treva vem a luz que te cega? Para não olhares, para não veres o que sempre desejaste ver? Porque me dizes que sim quando do teu peito sai um gritante não? Para não teres de balbuciar um talvez? Porque pensas que pensas o que não pensas? Para pensares no que eu penso que tu pensas? Não, o melhor é mesmo não pensares. Porque sentes que a vida te foge por entre os dedos se as tuas mãos estão presas e cheias de dúvidas? Porque desejas libertação se o que intimamente queres é estar quieto na bonomia do turbilhão? Porque calas o teu grito se do fundo da tua mansarda revelas a negrura da alma que te compõe o sentir? Porque não mentes se é tão doce mentir? Porque não calcas a doçura do mel? Porque não espezinhas a palavra calada? Porque não escreves o nada que temos para dizer? Que te disse eu que tu já não soubesses? Aprendeste algo mais para além daquilo que já não sabias? Que sabes tu da ignorância que te cerca se a certeza de saber é apenas uma incógnita que nos abala a consciência de nada sabermos, ou apenas de sabermos que nada sabemos? Para que viemos aqui? Para que é que estamos aqui? Para dizermos tudo quando apenas dizemos nada?..."
20/01/2010
19/01/2010
Post Morten
Um
"...olhavas-me de baixo e eu sentia-me como presa naquele quadro dependurado naquela parede nua... havias-me pintado, traço a traço, ruga a ruga com aquele lápis de cera preta com que fazias os teus gatafunhos... olhavas-me de baixo e eu sentia-me perdida no meio do teu olhar que não sabia ler, que não sabia entender... havias-me traçado a pele enrugada à volta dos olhos, nas faces, as próprias linhas do franzir habitual da minha testa... como me houveras pintado tão bem... ainda recordo aquela manhã em que sentada no banco da cozinha me havias pedido para posar para ti... ri-me como se pudesses fazer tal coisa... e, depois destes anos todos passados, em que regresso apenas em memória, olho-te de cima e vejo-te a olhar para mim daí de baixo, em pé nesse chão de tábuas rabugentas e bafiosas... olhas-me com um olhar parado, sem fulgor, apagado, mas olhas-me e recordas-me... só não consigo entender se me olhas por respeito se por amor... e a dúvida mantém-me presa dentro desta moldura..."
Dois
"... na verdade, esta moldura é a minha prisão... de tão perfeitos traços me retrataste que me sinto afogada neles como se eles fossem a minha própria alma, o cerne do amor que nos inundava enquanto a vida me era dada para viver... lembras-te, meu amor, de todas aquelas cartas que te escrevi enquanto presa dentro de outras grades, linhas estreitas que me afastavam de ti ou que te afastaram de mim... nunca soube o porquê e essa dúvida, que ainda hoje, aqui de cima mantenho, será a minha companhia na eternidade... é ela também que me concede a possibilidade de te ver aí olhando-me aqui nesta parede nua, dentro de mim mesma vazia e tão prenhe de linhas com que me vestiste naquela manhã na cozinha no banco sentada, rindo-me da tua certeza... meu amor, a paz que me preenche não retira a dor que mantive e que comigo trouxe; a paz que me preenche é uma paz por amor a ti mas a dor essa jamais sairá de mim; é um pouco como eu nestes riscos presente na tua mente quando daí em baixo me olhas... resta-me a doçura da lágrima que vejo cair da tua face nesse chão carcomido pelo tempo que não nos foi concedido... dor de mim em teu peito também ele dorido..."
"...olhavas-me de baixo e eu sentia-me como presa naquele quadro dependurado naquela parede nua... havias-me pintado, traço a traço, ruga a ruga com aquele lápis de cera preta com que fazias os teus gatafunhos... olhavas-me de baixo e eu sentia-me perdida no meio do teu olhar que não sabia ler, que não sabia entender... havias-me traçado a pele enrugada à volta dos olhos, nas faces, as próprias linhas do franzir habitual da minha testa... como me houveras pintado tão bem... ainda recordo aquela manhã em que sentada no banco da cozinha me havias pedido para posar para ti... ri-me como se pudesses fazer tal coisa... e, depois destes anos todos passados, em que regresso apenas em memória, olho-te de cima e vejo-te a olhar para mim daí de baixo, em pé nesse chão de tábuas rabugentas e bafiosas... olhas-me com um olhar parado, sem fulgor, apagado, mas olhas-me e recordas-me... só não consigo entender se me olhas por respeito se por amor... e a dúvida mantém-me presa dentro desta moldura..."
Dois
"... na verdade, esta moldura é a minha prisão... de tão perfeitos traços me retrataste que me sinto afogada neles como se eles fossem a minha própria alma, o cerne do amor que nos inundava enquanto a vida me era dada para viver... lembras-te, meu amor, de todas aquelas cartas que te escrevi enquanto presa dentro de outras grades, linhas estreitas que me afastavam de ti ou que te afastaram de mim... nunca soube o porquê e essa dúvida, que ainda hoje, aqui de cima mantenho, será a minha companhia na eternidade... é ela também que me concede a possibilidade de te ver aí olhando-me aqui nesta parede nua, dentro de mim mesma vazia e tão prenhe de linhas com que me vestiste naquela manhã na cozinha no banco sentada, rindo-me da tua certeza... meu amor, a paz que me preenche não retira a dor que mantive e que comigo trouxe; a paz que me preenche é uma paz por amor a ti mas a dor essa jamais sairá de mim; é um pouco como eu nestes riscos presente na tua mente quando daí em baixo me olhas... resta-me a doçura da lágrima que vejo cair da tua face nesse chão carcomido pelo tempo que não nos foi concedido... dor de mim em teu peito também ele dorido..."
18/01/2010
17/01/2010
Em branco
"...Que dizer perante duas páginas em branco? Que dizer em frente do nada que me domina e me arrasta a escrita para duas páginas em branco... dizer que sinto as palavras que me transportam para além da vontade de escrever... para além da vontade de dizer o que sinto na presença de duas páginas em branco... dizer que penso e não actuo ou que actuo e não penso... dizer que procuro e não encontro a não ser duas páginas em branco... Mas elas se preenchem com as letras que me saiem lenta e pausadamente do meu ser e do meu estar perante estas duas páginas em branco... Que me dizem elas, sejam elas o que quer que sejam, senão que as duas páginas em branco estão a acabar... O espaço escasseia e o tempo passa e nada mais me sai da mente para escrever nestas duas páginas em branco... Um branco de luz, de paz, de amor..."
16/01/2010
Prémio
15/01/2010
Queria apenas ser o teu sonho
“...em frente ao espelho da cómoda do teu quarto, sentada num banquinho forrado a tecido de cortinado vermelho, penteavas os teus cabelos, num ritual que funciona mesmo sem dares por isso... a escova passava ora uma, ora duas vezes, de cima para baixo e alisava os teus cabelos sedosos, cor de mel e de marfim... brilhavam no espelho e te revias momento a momento numa expectativa de mudança, o que não acontecia pois não podias ficar mais bela do que aquilo que já eras... a beleza em ti não residia nem morava... era!... a tua camisa de noite, acetinada bege, de rendas sobre o peito alvo de seios firmes e redondos, deixava transparecer a cor da tua pele suave e doce ao olhar sem ser preciso tocar... a tua cama de lençóis de prata, aguardava o teu corpo numa ânsia lasciva de quem à noite, só, te espera num desespero de intocabilidade... e tu, demoravas... da cómoda tiraste um frasquinho de perfume e te ungiste com ele o que provocou um agradável respirar a todos os móveis que te rodeavam... e a tua cama, ansiava pela tua presença... e o teu corpo demorava a conceder-lhe esse desejo... levantaste-te de frente do espelho e te miraste novamente de corpo inteiro e gostaste da tua imagem alva e bela naquele quarto iluminado pela tua presença... olhaste de soslaio e sorriste... sentaste-te na beira da cama e esta suspirou docemente perante a antevisão de que breve te possuiria... tiraste os teus pezinhos leves de dentro dos chinelos de cetim vermelho, levantaste um pouco o lençol e te entregaste total e lentamente ao prazer de estender do teu corpo e da entrega final ao teu leito... a tua cama nem sequer se moveu... aquietou-se para não te perturbar, para que não te arrependesses daquilo que acabaras de fazer, com medo que te levantasses e ela te voltasse a perder... a tua cama inspirou baixinho a fragrância do cheiro da tua pele e deixou-se ficar aguardando o teu próximo movimento... deitada de bruços te deixaste finalmente ficar e tua cabeça leve pousada de mansinho na almofada, arfava lentamente o teu respirar de prazer por mais uma noite de descanso e de sonhos... teus olhos semicerrados viram a lâmpada acesa e teu braço se estendeu ao interruptor da mesinha de cabeceira para a desligar… os teus movimentos eram propositadamente lentos para que o tempo demorasse ainda mais do que aquele que já existia... e a tua cama sentia... na obscuridade do teu quarto, teus olhos semicerrados olharam o tecto e se fixaram na sua alva cor que permitia uma réstia de luz no meio da escuridão... olhaste a janela e pelas frinchas da persiana, divisaste a luz cinzenta duma lua crescente... avizinhava-se uma noite de lua cheia e teu corpo descansou por um momento... a tua cama então suspirou e te abraçou fortemente... em suas mãos te acabavas de entregar... e o sono chegou.... adormeceste... não sei mais o que se passou... a noite decorreu, teu corpo diversas vezes se moveu... a tua cama não se movia, com receio de te acordar… abraçava-te sempre para não te deixar fugir... sentia-te sua e possuía-te num sonho imenso de impossibilidade, de impotência, de raiva, por não te conseguir ter tendo-te ali... tua mente adormecida, movia-se e sabia-se que sonhavas... a tua cama te tinha ali, indefesa, sozinha... sonhavas e eu aqui, nada mais te pedia... nada mais desejava... queria apenas ser o teu sonho...”
14/01/2010
13/01/2010
Querer crer
Querer (crer) a mudança. Crer (querer) e mudar. Palavras que nos impõem posturas de altivez perante a vida. Quero, posso e mando! Logo, mudo! Porque quero. Porque creio. Mudar. Mas, mudar como? Apenas crendo (querendo)? Basta querer (crer)? É assim tão simples e tão fácil? O desejo deve superar tudo e todos? O nosso querer (crer) sobrepõe-se ao crer (querer) dos outros? Não, não creio (mas quero). Anseio. Desejo poder crer (querer). Desejo poder querer (crer) mudar. Mas a luta é dura, demasiadamente dura. As pedras do caminho derretem-nos a vontade de avançar. E apenas, lentamente, muito lentamente se consegue (querendo) crendo, ir. Apenas continuamos a perguntar: ir para onde? Se não sabemos o caminho?!... A resposta é sim fácil de dar: Basta caminhar! É isso que faço, não porque queira (creia) mas porque o tenho de fazer. Não posso parar, não quero parar; quero caminhar; não porque creia que caminhar deva ser feito mas porque quero caminhar; não porque queira caminhar mas porque creio que devo caminhar. E é esta duplicidade dentro de mim que me está destruindo: o querer (crer) e o não crer (querer); o ir e o ficar; o ser e o não ser. Dilema terrível que destrói. Magoa. Mata. Corrói. E, no entanto, amar é preciso. E, no entanto, sorrir é dever. E, no entanto, caminhar é crer (bolas, nunca querer!). Caminho porque creio. Sei-o!.
12/01/2010
11/01/2010
Decidir e agir
"...Há sempre algo que nos impede de fazermos o que achamos que não devemos fazer; como que, dentro de nós, houvesse uma espécie de censura que velasse pelas nossas acções. O que podemos e o que não podemos fazer é algo que, primeiro, vai à loja da censura e só depois segue para fabrico. A forma final do produto é que poderá ser diversa daquela que foi projectada. Onde nos leva tal atitude? Que castração nos provoca semelhante sujeição? Porque não fazemos apenas o que nos apetece fazer? O que é isso de consciência? Uma espécie de balança com uma série de pratos onde são pesados todos os prós e os contras daquela acção planeada. Porém, porque razão agimos de imediato, sem pensar, em momentos de crise duma forma a que chamamos de instinto? Ou será que mesmo antes de agir instintivamente, a loja da censura funciona mesmo sem darmos por isso? Será que há, na mesma, um pesar na balança? Saltamos de imediato para o lado para evitarmos ser atropelados por uma carro mesmo sem vermos que podemos cair na valeta cheia de água suja da sarjeta; fugimos rápidos, em caso de incêndio por exemplo, da varanda para a rua sem olharmos à altura que nos separa dela e sem pensarmos que podemos partir uma perna. Porém, no dia a dia das nossas acções habituais de vida em que o instinto não é preciso, as nossas atitudes são “pesadas” antes de as tomarmos, como se de uma poção mágica se tratasse e fosse preciso tomar a medida exacta. Então, hesitamos antes de agir e somente depois actuamos. As nossas escolhas devidamente pensadas tanto podem dar para o certo como para o torto; não há maneira de sabermos se aquela decisão, ainda que devidamente gerida e equacionada, vai resultar em pleno. Mais tarde é que saberemos o resultado. Na verdade e a experiência mostra-nos isso, quando usamos o instinto, verificamos o resultado da acção então utilizada, de imediato, quer seja bom ou mau; também, de imediato, ficamos felizes ou infelizes com a opção tomada. Já quando apenas a tomamos depois de devidamente ponderada a questão, somente muito depois veremos o resultado; e até podemos viver angustiados aguardando o desfecho; será que fiz bem, será que fiz mal? E agora? Bem, só tenho que aguardar e esta espera, esta expectativa provoca angústia, provoca danos, provoca dor. Que faço? Escrevo um texto sobre que tema? Bem, vamos lá ver. Penso, repenso e nunca mais me surge a inspiração para desenhar algumas letras sobre um tema que nunca mais se faz luz em mim. Então, de imediato, começo a teclar instintivamente; saiu o que acabaram de ler; ao mesmo tempo que escrevia ia vendo o resultado de imediato daquilo que surgia no monitor. Não houve angústia; não houve dor. Utilizem o instinto o mais que puderem. Vão ver que, geralmente, dá certo. Também o pior que poderá acontecer é terem de perder tempo a ponderar a questão. Mas será que ponderar é assim tão mau? Não sei, a decisão é sempre individual. Façam o que vos aprouver; façam o que vos der na real gana. Sejam felizes nem que para isso seja preciso chorar um pouco. É que, às vezes, umas lágrimas clarificam a situação e o panorama, após o choro, é um pouco mais claro!..."
10/01/2010
09/01/2010
Carta para um Amigo
"...A carta que te escrevo aqui e agora é o que "eu" sinto e penso da vida e não "serve" para todos... não há respostas definitivas e únicas para todos nós... vivemos num mundo de desafectos em vez de vivermos num de afectos... vivemos num mundo onde o sentirmo-nos bem com a nossa própria identidade é já tão dificil que usamos estas identidades "falsas" para podermos falar e ouvir... Já nos falta a "coragem" de enfrentarmos os outros, de olharmos os olhos uns dos outros e dizermos a quem estiver na nossa frente o que sentimos, o que pensamos, o que queremos, o que temos, o que podemos ser e, principalmente, o que podemos dar... A vida já vai longa para mim e já vivi muito e quase tudo o que um homem pode viver... passei de tudo um pouco e os anos foram-me tornando "duro" e um pouco "sóbrio" perante as bebedeiras da vida... A vida não é fácil e tudo o que a vida nos dá é pouco porque queremos sempre mais e melhor... passamos a vida a lutar por um lugar ao sol e esquecemos o quanto bom é refrescarmo-nos numa sombra... Passamos o tempo a querer, passamos o tempo a desejar, passamos o tempo a ter, a possuir, a querer ter ainda mais... E esquecemo-nos de dar!... E, um dia, ficamos de mãos vazias e ficamos sem nada e lamentamos termos ficado sem tudo o que haviamos tido... que desgraça enorme... perdi tudo... perdi os bens... perdi a namorada... perdi os filhos... perdi a mulher... tanto amor perdido!... Tudo o que tinhamos se foi... E passamos a ser uns eternos infelizes!... Errado!... Nunca tivemos nada!... Porque não somos donos de nada!... Nada temos!... Nada possuimos!... Nada é nosso!... Só dando é possivel ser feliz!... Desejar tudo de bom para o outro!... Querer que a mulher que pensava ter "perdido" esteja feliz agora mesmo sem ser a meu lado!... Darmo-nos aos outros de todas as formas, de todas as maneiras... Não pretender apenas ser amados... Amar somente.... A felicidade está em amar, tão somente em amar e sentir que amar é estar feliz consigo mesmo... Amar sem posse nem destino, incondicionalmente...
Não chorar sobretudo porque é preferivel sorrir e mesmo que por dentro a alma se parta aos bocadinhos que nos reste um sorriso nos lábios para dar aos outros... Foi isso que aprendi ao fim de muitos anos... Não fui, não sou nem quero ser dono do que quer que seja... Quero olhar e desejar que todos estejam melhor do que eu... Escolho o melhor para ti... Ao fazer isto faço-o com alegria, com gosto e sou feliz!... É esta a resposta: não há caminhos para a felicidade... esta, é o caminho... Não interessa que caminhos havemos de percorrer, o que interessa é caminhar com a certeza de que "escolher" o melhor para o outro é a base do meu bem estar... Sentir que com essa "escolha" eu estou a caminhar e não à procura do caminho... Estas palavras não "servem" para todos, eu sei... Mas não sei outras... Tudo o que possas ler nos meus escritos são uma mistura de credulidade e de incredulidade... são uma mistura de fé e de raiva... são uma mistura de sim e de não... Pela simples razão que precisamos dessa "balança" para o nosso equilíbrio... Mas, o cerne da questão está lá, nas entrelinhas e estas são as que acabo de te escrever... Não sei se era "isto" que querias ouvir, se era esta a "mão" que precisavas... acredita que é a única que tenho e dei-te o que tinha: tempo, palavras e um desejo firme de felicidade... E, para já, escolho para ti um sorriso...!
Não chorar sobretudo porque é preferivel sorrir e mesmo que por dentro a alma se parta aos bocadinhos que nos reste um sorriso nos lábios para dar aos outros... Foi isso que aprendi ao fim de muitos anos... Não fui, não sou nem quero ser dono do que quer que seja... Quero olhar e desejar que todos estejam melhor do que eu... Escolho o melhor para ti... Ao fazer isto faço-o com alegria, com gosto e sou feliz!... É esta a resposta: não há caminhos para a felicidade... esta, é o caminho... Não interessa que caminhos havemos de percorrer, o que interessa é caminhar com a certeza de que "escolher" o melhor para o outro é a base do meu bem estar... Sentir que com essa "escolha" eu estou a caminhar e não à procura do caminho... Estas palavras não "servem" para todos, eu sei... Mas não sei outras... Tudo o que possas ler nos meus escritos são uma mistura de credulidade e de incredulidade... são uma mistura de fé e de raiva... são uma mistura de sim e de não... Pela simples razão que precisamos dessa "balança" para o nosso equilíbrio... Mas, o cerne da questão está lá, nas entrelinhas e estas são as que acabo de te escrever... Não sei se era "isto" que querias ouvir, se era esta a "mão" que precisavas... acredita que é a única que tenho e dei-te o que tinha: tempo, palavras e um desejo firme de felicidade... E, para já, escolho para ti um sorriso...!
08/01/2010
07/01/2010
06/01/2010
Ensaio sobre um ensaio inacabado
"...Acabo de chegar de um lugar indeterminado; não o sei localizar; fica algures na minha memória, já um pouco esbatida pelo tempo; gastei muito do meu tempo a lembrar o que não deveria ter sido recordado. Mas o arrependimento não trás nada de novo, apenas revolve o velho e não deixámos de ser o que somos, apenas almas errantes neste mundo de contrastes e de negações. Somos apenas e tão somente os "dejectos" dum mundo imperfeito. Não nos foi dada a possibilidade de esboçar a nossa própria vida e assim temos de nos contentar com os constantes ensaios que fazem de nós, indeterminando a solução final.Perdemo-nos na amálgama do tempo e da insanidade.Já não somos quem queremos ser.Somos apenas o que nos "dão" para ser.Permitem-nos viver de memórias e de factos que de novo se transformam em lembranças.Mas, lembrar para quê? Para sofrer? Para verificar que afinal de contas de nada serviu o esboço que de mim fizeram em constantes ensaios que a nada me levaram? Apenas à negação, só me levaram à negação.Não sei quem sou. Talvez nem queira saber: Não foi para isso que aqui vim; vim a este mundo para ser feliz, disseram-me um dia; e eu, parvo, acreditei.Vivi correndo nesse sentido; esbocei sorrisos e ensaiei risadas. Tropecei, caí mas de novo me levantava. O horizonte estava sempre perto e me bastava estender a mão; a ajuda nunca me era negada; acreditei que o esboço que de mim fizeram em alguma coisa de bom se haveria de tornar, um dia, quando não sabia, mas haveria de me realizar.Engano. Puro engano. Quando dei por mim estava caído, só, perdido, fendido em mil pedaços de mim, dorido de dores que não imaginava existirem.Mesmo assim olhava em frente na expectativa de que o esboço que fizeram de mim, depois de tantos e tantos ensaios, me permitissem olhar e sorrir de novo. Fiz isso muitas vezes. E havia sempre uma mão, ali, expectante, sorrindo para mim (engano). Para que foi que me sorriram? Porque me enganaram? Porque me disseram que sim? Porque razão me arrastei até aqui?Porquê?Que ganhei eu?Derrota após derrota?Claro que ganhei muitas batalhas, claro que sorri muitas vezes, claro que dei gritos de espanto e de prazer, claro que sim, mas, para quê? Para chegar a este fim?Para verificar que tudo o que vivi foi uma dramatização de mais uma história igual a tantas outras histórias de amor e sofrimento?Foi para isso?Foi para isso que me trouxeram até aqui?Foi para verificar que "isso" não existe? E, o que é o "isso"? O "isso" é um sarcástico riso dum engano simples mas preciso; dizem-nos: Vai e sê feliz, foi para isso que aqui vieste. E eu vim, olhando, sorrindo, esboçando e ensaiando o que poderia vir a ser e a ter: um amor, o amor!Amei e fui amado.Quis ficar pela simples razão de ter gostado. Então amei e fui novamente amado e numa infindável sequência de vidas eu percebi que estava a ser traido pelo esboço que fizeram de mim; o ensaio não tinha tido ensaio-geral; o pano subira para a representação da vida e eu não sabia o papel.Destruiram-me, logo ali, logo à partida.Negaram-me a possibilidade de estudar melhor as deixas e as palavras, os tregeitos e a forma de colocar o corpo no palco da vida; o esboço havia sido mal concebido; o ensaio não havia servido de nada.
Não havia ponto.
Não havia nada. No entanto, pensei que havia tudo e de nada me servi a não ser da minha inadaptação ao papel. Fui um mau actor
As lágrimas caiem-me agora e ninguém as vê; só eu as sinto aqui ao meu redor; os olhos se me toldam numa profunda mágoa e a tristeza me invade.
Quis amar e ser amado.
E, sou-o!
Para quê?
Onde é que ele está? Aqui, ao meu lado? Ali, depois daquela esquina? Depois, um pouco mais para além do horizonte? Ou a seguir àquele arco-íris colorido de vida mas que nada mais me traz para além dessas mesmas cores.
Isto não é um grito.
É para dizer que não me contratem mais; não há esboço e ensaio que cheguem para me reconstruirem de novo; a "argamassa" foi totalmente utilizada quando havia um sorriso, quando havia riso e olhos brilhantes.
Já não sei o papel de cor e já não consigo ler.
No entanto, o amor não precisa de esboços nem de ensaios; no entanto, o amor não precisa de saber o papel, nem de ponto, nem de palco; o amor precisa de actor, de alguém que grite que está vivo, que ainda não perdeu a única "coisa" que tem para dar e isso está ainda dentro do meu coração, ainda pulsa e me diz que é, que existe, que sente, que vibra.
Grito, no meio de uma lágrima escorrendo sobre um sorriso, que por muitos esboços e ensaios, eu ainda o sinto e que esse amor (latente, vivo) não acabará nunca, morrerá comigo, levá-lo-ei para onde eu for, será presa de mim mas não estará preso em mim, será livre de ser o que tiver de ser, será o advir..."
Não havia ponto.
Não havia nada. No entanto, pensei que havia tudo e de nada me servi a não ser da minha inadaptação ao papel. Fui um mau actor
As lágrimas caiem-me agora e ninguém as vê; só eu as sinto aqui ao meu redor; os olhos se me toldam numa profunda mágoa e a tristeza me invade.
Quis amar e ser amado.
E, sou-o!
Para quê?
Onde é que ele está? Aqui, ao meu lado? Ali, depois daquela esquina? Depois, um pouco mais para além do horizonte? Ou a seguir àquele arco-íris colorido de vida mas que nada mais me traz para além dessas mesmas cores.
Isto não é um grito.
É para dizer que não me contratem mais; não há esboço e ensaio que cheguem para me reconstruirem de novo; a "argamassa" foi totalmente utilizada quando havia um sorriso, quando havia riso e olhos brilhantes.
Já não sei o papel de cor e já não consigo ler.
No entanto, o amor não precisa de esboços nem de ensaios; no entanto, o amor não precisa de saber o papel, nem de ponto, nem de palco; o amor precisa de actor, de alguém que grite que está vivo, que ainda não perdeu a única "coisa" que tem para dar e isso está ainda dentro do meu coração, ainda pulsa e me diz que é, que existe, que sente, que vibra.
Grito, no meio de uma lágrima escorrendo sobre um sorriso, que por muitos esboços e ensaios, eu ainda o sinto e que esse amor (latente, vivo) não acabará nunca, morrerá comigo, levá-lo-ei para onde eu for, será presa de mim mas não estará preso em mim, será livre de ser o que tiver de ser, será o advir..."
05/01/2010
04/01/2010
Poema do livro lido
Deixem-me ser um poema!
deixem-me ser todo eu um livro;
queria ser todo eu algo escrito,
algo para dizer ou ser dito!
queria ser todo eu um poema
para num livro à tua cabeceira pousar,
sentir-me ser lido
e nas tuas mãos versejar.
deixem-me ser um poema!
se o livro que desejo ser,
em livro um dia se tornar,
que seja o livro do livro lido
por todos os que precisam de amar...
sou assim, o poema desta manhã,
as palavras desta tarde
e os sons desta noite;
sou a manhã deste poema
e a tarde destas mesmas palavras,
a noite dos sons do fogo que arde...
sinto assim a sua fragrância,
numa ânsia
de palavra dita
ou mesmo de palavra escrita...
sinto o odor do poema versejado,
ouvido,
relido,
mirado,
querido
ou até mesmo...odiado...
sinto o cheiro da palavra que escrevo
ou da palavra que leio...
sinto o poema dentro de mim
com a manhã a nascer em ti
ouvindo a tarde adormecer
na noite do teu sonho de prazer...
sinto-me poema...
sinto-me palavra...
sinto-me viver...
deixa-me ouvir...
deixa-me ler...
porque não quero sentir a dureza do insulto
que o silêncio em mim provoca...
não quero ouvir os gritos lancinantes
dum silêncio que tanto me choca...
quero ouvir as palavras ditas...
quero ler as palavras escritas...
quero ouvir os sons que elas me trazem...
quero ler as tonalidades que elas fazem...
quero sentir o impacto do dito...
quero sentir o embate do grito...
não quero ler a palavra não escrita...
não quero ouvir o silêncio do livro vazio...
não quero escutar o silêncio do não dito...
quero sentir a pureza da voz
que a palavra escrita me traz...
quero sentir o estrondo do grito
que a palavra dita me faz...
quero sentir que és...
quero sentir que estás...
quero sentir as palavras
e quero os livros com elas gravadas!...
deixem-me ser um poema!...
escrevo assim
o poema desta manhã
com as palavras da tua tarde
e os sons da nossa noite,
e, se a noite chegar,
sem que a manhã tenha surgido,
não tenhas receio,
não tenhas medo,
porque mesmo assim eu te leio...
deixem-me ser todo eu um livro;
queria ser todo eu algo escrito,
algo para dizer ou ser dito!
queria ser todo eu um poema
para num livro à tua cabeceira pousar,
sentir-me ser lido
e nas tuas mãos versejar.
deixem-me ser um poema!
se o livro que desejo ser,
em livro um dia se tornar,
que seja o livro do livro lido
por todos os que precisam de amar...
sou assim, o poema desta manhã,
as palavras desta tarde
e os sons desta noite;
sou a manhã deste poema
e a tarde destas mesmas palavras,
a noite dos sons do fogo que arde...
sinto assim a sua fragrância,
numa ânsia
de palavra dita
ou mesmo de palavra escrita...
sinto o odor do poema versejado,
ouvido,
relido,
mirado,
querido
ou até mesmo...odiado...
sinto o cheiro da palavra que escrevo
ou da palavra que leio...
sinto o poema dentro de mim
com a manhã a nascer em ti
ouvindo a tarde adormecer
na noite do teu sonho de prazer...
sinto-me poema...
sinto-me palavra...
sinto-me viver...
deixa-me ouvir...
deixa-me ler...
porque não quero sentir a dureza do insulto
que o silêncio em mim provoca...
não quero ouvir os gritos lancinantes
dum silêncio que tanto me choca...
quero ouvir as palavras ditas...
quero ler as palavras escritas...
quero ouvir os sons que elas me trazem...
quero ler as tonalidades que elas fazem...
quero sentir o impacto do dito...
quero sentir o embate do grito...
não quero ler a palavra não escrita...
não quero ouvir o silêncio do livro vazio...
não quero escutar o silêncio do não dito...
quero sentir a pureza da voz
que a palavra escrita me traz...
quero sentir o estrondo do grito
que a palavra dita me faz...
quero sentir que és...
quero sentir que estás...
quero sentir as palavras
e quero os livros com elas gravadas!...
deixem-me ser um poema!...
escrevo assim
o poema desta manhã
com as palavras da tua tarde
e os sons da nossa noite,
e, se a noite chegar,
sem que a manhã tenha surgido,
não tenhas receio,
não tenhas medo,
porque mesmo assim eu te leio...
03/01/2010
02/01/2010
Pedir
“... pedi para ver o invisível e deram-me a cegueira... pedi para ouvir o inaudível e obtive o silêncio... pedi para tactear o nada e consegui o caos do tudo... pedi sempre o que quer que fosse que me viesse à ideia e o retorno era sempre o oposto... a conclusão óbvia era não pedir ou então pedir apenas o real, o vivo, o palpável, o som, a luz, a beleza... nunca tive a certeza se terá sido a melhor opção... mas a verdade é que a partir do momento em que pedi apenas o viável, as coisas se tornavam passíveis de obtenção... pedi amor e tive-te... pedi um beijo e saboreei-te os lábios... pedi um abraço e amornei meu corpo na tua sedosa pele... pedi um toque e tive-te completa... pedi um olhar e consegui a imagem real... pedi um som e ouvi tua voz num doce dizer que me amas... pedi-te presente e tenho-te em mim por completo... pedi uma ternura e senti amor... pedi apenas o que podia obter e nada me foi por ti negado... senti-me preenchido pelas mais pequeninas coisas que de tão pequeninas se tornam no todo tão desejado... pedi para te amar e senti-me amado... que mais te posso eu pedir que já não me tenhas dado?...”
01/01/2010
31/12/2009
30/12/2009
29/12/2009
Espelho
“…torno-me espelho de mim mesmo e a luz que em mim me toca, se reflecte no exterior do meu ser… espalho o que sou no espaço em meu redor… vejo-me diverso e dividido em milhares de partículas de luz, facto que tanto me seduz… porém, receio quebrar-me em mil pedaços e perder a magia destes meus ténues passos pelo mundo da fantasia… elejo-me mentor de mim mesmo e, sereno, torno-me pleno daquilo que sou: uma partícula apenas no meio do nada que me rodeia… mas a minha imagem, por todos os lados dividida, semeia no espaço em que me insiro tudo o que tenho por pouco que seja e eu sinto que a verdade deste louco imaginar, mais não é do que o desejo de o ser, de em mil imagens me tornar e… me dar…”
28/12/2009
27/12/2009
26/12/2009
Determinismo
25/12/2009
24/12/2009
23/12/2009
22/12/2009
21/12/2009
Quis ser um Poeta...
"...quis ser um poeta que tivesse asas... e poesia em cada voo... quis ser um poeta cujas palavras vos enchesse a casa... e que vos reencontrasse em cada dor... quis ser um poeta que fosse fogo e água e sol e terra... e que com todos esses elementos criasse um novo ser... mas há poetas que são simplesmente poetas... há poetas que ainda nem sabem que o são... há poetas... imensos... tentei um dia ser um desses poetas... e sei hoje que um poeta nunca morre... faz-se em vida mesmo na morte, soltam as asas e levam-vos o vento... protegem-vos e fazem-se ao caminho convosco... peregrinam em vós... que com ele caminhais... bebeis o sorriso dos poetas... vedes pelos seus olhos, e por detrás desses olhos, uma alma que brilha e ilumina cada recanto escuro da vossa própria alma... e é em dias de negro e frio que mais precisais dos poetas... porque eles são fonte, força e semente... um poeta nunca mente... ele, o poeta, é a vossa armadura, a vossa madrugada e o fim de tarde... a vossa lua nova ou lua cheia... são perenes todos os poetas... nascem e renascem... mesmo sem nunca morrerem... nada destrói um poeta, nem a voz nem o sentir... quis ser um desses poetas que tivesse asas e poesia em cada voo... podemos ser usados, abusados, até como lixo abandonados, enegrecidos e deturpados... simplesmente somos quem somos ... podemos ser retalhados, citados e aviltados... podemos ser usados como arma de arremesso... podemos ser teorizados e complicados... podemos ser mistificados e cristalizados... podemos até servir de pasto em chamas inquisitoriais... não somos orações, nem homilias nem credos... e não nos deixamos cair... não somos ameaça do fim do mundo... não somos propriedade de ninguém... não somos espada nem guilhotina... não cabemos na pena nem no ódio de quem de nós se apropria... somos apenas poetas... somos simplesmente imensos... não cabemos em nenhuma semana nem em qualquer dia... somos de todos os tempos... não nos deixamos aprisionar por nenhuma alma negra... somos apenas asas... não somos anjos... somos apenas amor e amamos... e se agora sei, como tão bem sei, que as palavras vos podem fazem voar, que às vezes vos levam para lá do mar, em asas de vento, de dor e de amor... sei também, como sabem todos, que não há palavras nem versos, nem poesias que cheguem para transformar um poeta num anjo..."
20/12/2009
19/12/2009
Sentir
“... és sinónimo de paz, na palavra que me dás... és sinónimo de beleza nesse olhar profundo sem mácula de tristeza... és sinónimo de alegria no toque suave que em mim um teu sorriso cria... és sinónimo de paixão quando disfruto o bater mais forte do meu coração... és sinónimo de harmonia quando me beijas enlaçados em sintonia... és sinónimo de luz quando no escuro da noite teu amor me seduz... és sinónimo de serenidade quando no abraço matamos a saudade... és sinónimo de ternura quando na partida o teu olhar em meus olhos perdura... és sinónimo de puro amor quando nos afagamos com a alma e os corpos sem pudor... és saudável loucura quando sinto a nossa mútua procura e nos afogamos no delirar de um sentir que tudo é tão simples quando sabemos porque é que nos estamos a amar... és tudo o que um simples mortal busca na imortalidade que a qualquer um ofusca no silêncio do grito que amaina a febre do ruído que quebra tudo mesmo que fosse granito... és tudo o que o amor busca no olhar, no toque, no beijo que de momento em momento se reduz ao desejo, trazendo como prenda, tecido em flocos de doce renda, o caminho percorrido como sempre desejado, obtido e que a luz em nossos corações se acenda para num florir matinal ou num anoitecer normal, o doce sabor nos acorde ou nos adormeça em profunda certeza que o dia seguinte mais não será do que um novo fruir do amor que nos envolve e a cada momento nos devolve na mais plena pureza do aceno tão natural como há pouco sobre nós desceu... porque se te sinto minha, sei que me sentes teu...”
18/12/2009
17/12/2009
16/12/2009
15/12/2009
14/12/2009
13/12/2009
12/12/2009
11/12/2009
10/12/2009
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