29/11/2004

cota



"...só muito tempo mais tarde do seu uso, eu vim a conhecer o termo "cota" como se referindo a "velhote"... um gajo chato não velhinho mas já velhote...

...nunca liguei muito a isso e poucos se me referiram como se eu fosse um "cota"

...(que raio de calão!... cota!!!... bem... os "putos" lá sabem o porquê...)

...mas dizia eu que quando soube que eu era um desses "cotas" coloquei a minha imaginação a funcionar e dei por mim a pensar que eu era uma pessoa importante... eu era um Cota!... um senhor Cota!... mas que pinta!...

...de cota a cotação é um passo... e dei por mim a pensar qual seria a cotação de um cota... ou, como se mede a cotação de alguém... se é que existe cotação para um cota... bem, mas não interessa... o que interessa é que comecei a adorar ser cota e cada vez mais me sinto um cota melhor (e, às vezes, mais puto que os putos de agora)... e dou por mim a pensar que ser cota é até uma grande coisa... só o prazer de já ter vivido mais tempo que os putos, só o facto de saber que os putos poderão a não chegar a serem cotas, ou seja, daqui a uns tempos talvez já nem se use esse termo e em vez de cotas (com cotação) poderão eventualmente virem a ser chamados de, sei lá, por exemplo... abadias!... que giro... é pá não fica mal... os putos de agora, quando forem velhadas passam a ser chamados de "abadias"... eheheheh... tá criado o termo... quem quizer utilizar não paga direitos de autor... eu cedo os direitos...

...mas, dizia eu, onde é que eu ía? Bem, isto é mesmo de um cota!... E, na verdade, um cota é um chato... mas consegui o que pretendia... fazer-vos ler este texto sem qualquer tipo de interesse! É esta a cotação de um cota:- Fazer de uma coisa sem interesse uma coisa interessante!...

...e agora, já agora, podem-me chamar... abadia!... eheheheh..."


28/11/2004

viagem



"...Eram extremamente apelativos; estavam ali à minha disposição; em cima da mesinha de cabeceira. Era uma caixinha escura que ela usava para ter à mão os comprimidos que a faziam dormir. Nunca liguei qualquer importância ao valor daquela caixinha e, no entanto, ela continha o passaporte para uma viagem, uma sem retorno. Nunca houvera pensado nisso, excepto naquela noite; uma noite em que ela não estava ali deitada comigo (nunca mais estaria); uma noite em que acabara de chegar de mais um bar e depois de ter ingerido um bom pedaço de álcool para me aquecer a alma tão fria e tão dormente que já nem a sentia. Também, para que queria eu uma alma? Que é que ela me dá ou me faz? A caixinha preta continuava ali. Quantos comprimidos teria ela deixado desde a última vez que a encheu depois de os tirar da embalagem de marca do medicamento? A minha mão direita estendeu-se para aquela caixinha preta tão apelativa como tão consoladora pelo imaginário que já me estava a provocar. Não custaria nada e dormiria para sempre; tão bom. Era disso que eu estava a precisar ou seria de mais um pouco de gin? Mas para tomar os comprimidos eu precisava de beber alguma coisa e essa coisa estava também ali à mão; debaixo da cama, talvez também deitada no chão por cima do tapete; teria ainda algum líquido? O suficiente para engolir os comprimidos? Já não tinha forças para me levantar e ir buscar outra garrafa. A caixinha preta continuava ali e a minha mão já estava em cima dela. Senti aquela textura (penso que era marfim) sob os meus trémulos dedos mas senti-a fria e um arrepio percorreu-me a coluna; ou teria sido outro tipo de arrepio? Não sei quanto tempo estive com aquela caixinha na mão. Não sei quanto tempo demorei a tomar uma decisão. Não sei quanto tempo a olhei com um turvo olhar. Não sei porque razão não a segurei. Dei por mim a olhar para ela sem saber para que é que ela servia e naquele momento apenas me apeteceu dormir; tão perto do derradeiro sono; tão desejado; ali tão à mão.

Reparei então que estava deitado sobre o lugar dela com o braço direito estendido para a mesinha de cabeceira segurando a caixinha preta que continha o passaporte para a derradeira viagem; tantas vezes assim estivemos; tantas vezes senti o seu calor, o seu respirar, o seu arfar; tantas vezes assim ficamos depois de fazermos amor. E, neste estúpido momento, repetia aquela posição estendendo a minha mão para uma viagem. Não consegui conter o choro; não consegui aguentar as lágrimas; não consegui segurar a caixinha preta. Não consegui partir. Restou-me a certeza que no dia seguinte teria mais uma noite de frio..."


27/11/2004

damas

Há muito que vivo com duas Damas terriveis: a Saudade e a Solidão. São muito dificeis de aturar e de se conviver com elas. São tremendamente egoistas e não nos deixam em paz; não fogem, não se retiram. Por isso, resta-me um subterfúgio: tentar enganá-las: rio-me delas e tento fugir para dentro de mim; dentro de mim encontro um mar revolto mas tem ondas, tem cheiro a maresia, tem sol, chuva, vento, frio e calor; tem sal, tem vida, pulsa, sente e toca; e nesse mar revolto procuro uma ilha, uma ilha mesmo deserta onde me possa abandonar e nada mais sentir; olho em volta e continuo a ver esse mesmo mar mas a esperança de ver o nevoeiro dissipar, a esperança de ver que algum barco possa no meu cais aportar, a esperança de que sorrir de novo seja possível, esta, a esperança é a terceira dama com que consigo ainda viver.

26/11/2004

necessidade



"...I do not need

to be a part of your sadness;

I just need to be

the reason of your smile."

25/11/2004

veludo



(sem legenda)

determinado (II)

Espalhou a alva espuma sobre a cara húmida; acariciou a face ao fazê-lo, como que num ritual que era obrigado a cumprir. Pegou na lâmina e começou, como de costume, a desfazer a barba a partir do canto inferior esquerdo do pescoço no sentido de baixo para cima. Era uma carícia "azêda" mas que sabia bem. No final, meteu outra vez a cabeça debaixo da água fria e sentiu o gelo refrescar-lhe a ardência facial; pegou no bálsamo e untou a cara e o pescoço; o cheiro não é activo e até é bastante agradável porque para além de refrescar torna a pele macia (naquele momento, claro). Com uma toalha secou o cabelo esfregando-o fortemente e penteou-se de seguida num ritual também demasiadamente frustrante porque sempre igual; desejava ter outro tipo de penteado mas o raio do cabelo não lho permitia. Sorriu novamente e mais uma vez piscou um olho a ele mesmo.
Seguiu para o quarto. Despiu as calças de pijama e vestiu-se a rigor para enfrentar o vento norte frio que soprava lá fora. Eram oito e meia e o sol tinha nascido havia ainda pouco tempo. Meteu o nariz de fora e aspirou a névoa matinal. Fresca, suave e pura. Tentou olhar o sol mas logo retirou o olhar. Meteu-se a caminho. Sentia uma paz estranha. Parecia a primeira vez que fazia aquilo. Ou seria mesmo a primeira vez? Caminhou forte no sentido sul para norte, tal como daquela vez em que se meteu à chuva e a sentiu no corpo refrescando-lhe a alma. Desta vez não sentiu essa necessidade; desta vez a vontade era apenas a de usufruir de uma manhã fria de sol neste inverno que findara e nesta primavera que acabara de começar.
Caminhou apenas com largas e longas passadas até sentir o corpo aquecer e o ar frio começar a encher de calor os seus pulmões.Respirava fundo e compassadamente. Ao fim da longa rua a subir, parou. Encostou-se a um muro e descansou. Olhou para dentro da sua alma e declaradamente entendeu a mensagem: tinha mudado, pura e simplesmente estava mudado. Tivera de caminhar noutro sentido. Iniciara, pois, o novo percurso. Sentiu-se bem.
Sorriu. Sentia-se feliz.

23/11/2004

determinado (I)

Olhou-se ao espelho naquela manhã de vento norte que forte soprava na sua janela; os seus olhos marcados por largas olheiras de uma noite mal dormida não lhe permitiram uma razoável visão; colocou os óculos; mirou-se melhor; a boca estava seca e os lábios pareciam cortados; o cabelo despenteado ainda que curto cortado; o nariz comprido deu-lhe a noção de grandiosidade que não tinha (nem queria, ou será que sim?); retirou os óculos e pousou-os perto.
Abriu a água fria e meteu a cabeça debaixo do jacto; estremeceu e abanou a cabeça como cachorro molhado há pouco; olhou-se de novo; pela cara escorriam as gotas da água com que se fizera acordar daquele sono pesado; olhou profundamente nos seus próprios olhos mas teve de colocar novamente os óculos para se ver melhor.
A imagem que mirava era interessante apenas porque nova; quem via era alguém que já não via há muito tempo; estava ali, à sua frente, alguém que tinha dormido um sono bastante longo; estava ali, à sua frente, alguém que acordara de novo.
Foi preciso uma espécie de baptismo.
Foi preciso nascer de novo, como que surgir do ventre materno e sentir a placenta feita água gelada escorrer-lhe pela face; sorriu; sentiu-se novo, bonito, airoso, sorridente.
Piscou um olho a ele mesmo; sorriu de novo; pegou na espuma de barbear; tinha toda uma nova vida à sua frente.

22/11/2004

azul



...como sempre, e apenas, porque gosto do azul...

distante

...eu tinha qualquer coisa para te dizer, algo que já anda dentro de mim há milhares de anos e nunca tive essa oportunidade...
...há dias, quando surgiste na minha vida, um pouco alheada do próprio mundo, quando ali surgiste espelhada na minha alma, eu estive quase quase para te dizer...
...penso que me faltou a coragem e a voz se me embargou; calei dentro de mim o que deveria ter gritado; talvez tenha esquecido a forma de gritar, talvez só saiba calar... não sei... já não sei...
...mas eu tinha qualquer coisa para te dizer, algo que me possui e me rasga a mente, num acto demente do meu próprio ser de aqui estar sem saber falar, sem saber o que te dizer, sem saber gritar o que tanto tenho calado... milhares de anos de silêncio dentro de mim...
...milhares de anos de solidão da minha própria voz; milhares de anos de espera que surjas ali à esquina, em qualquer lugar, e num momento de paz eu te possa gritar todo o meu amor...
...áhh dor que dói e me corrói a alma de tanto calar esta tão louca forma de te amar... dor de aqui estar e não saber o que te dizer, de não saber traduzir esta minha forma de tão somente te sorrir...
...e sorrio-te a todo o instante, aqui, ali, em qualquer lugar ainda que distante... não me preocupa se me ouves, se escondes as palavras que tão docemente me são devolvidas porque não enviadas; doces palavras de paz, ternura, carinho, amor... em doses de candura mas eivadas de toda a minha dor...
...estão aqui mas sei que tinha qualquer coisa para te dizer; como posso gritar se a voz se me tolda em silêncios ocos e sem eco ou se com eco ecoam apenas dentro do meu vazio, um vazio que não preencho ou se preencho apenas o preencho com a minha própria alma já de si tão gasta por durante todos estes milhares anos não me teres dito: Basta!...

20/11/2004

uma simples carta

A carta que te escrevo aqui e agora é o que "eu" sinto e penso da vida e não "serve" para todos; não há respostas definitivas e únicas para todos nós; vivemos num mundo de desafectos em vez de vivermos num de afectos; vivemos num mundo onde o sentirmo-nos bem com a nossa própria identidade é já tão dificil que usamos estas identidades "falsas" para podermos falar e ouvir. Já nos falta a "coragem" de enfrentarmos os outros, de olharmos os olhos uns dos outros e dizermos a quem estiver na nossa frente o que sentimos, o que pensamos, o que queremos, o que temos, o que podemos ser e, principalmente, o que podemos dar. A vida já vai longa para mim e já vivi muito e quase tudo o que um homem pode viver; passei de tudo um pouco e os anos foram-me tornando "duro" e um pouco "sóbrio" perante as bebedeiras da vida. A vida não é fácil e tudo o que a vida nos dá é pouco porque queremos sempre mais e melhor; passamos a vida a lutar por um lugar ao sol e esquecemos o quanto bom é refrescarmo-nos numa sombra.
Passamos o tempo a querer, passamos o tempo a desejar, passamos o tempo a ter, a possuir, a querer ter ainda mais.
E esquecemo-nos de dar!
E, um dia, ficamos de mãos vazias e ficamos sem nada e lamentamos termos ficado sem tudo o que haviamos tido; que desgraça enorme; perdi tudo; perdi os bens; perdi a namorada; perdi os filhos; perdi a mulher; tanto amor perdido! Tudo o que tinhamos se foi. E passamos a ser uns eternos infelizes!...
Errado!...
Nunca tivemos nada! Porque não somos donos de nada! Nada temos! Nada possuimos! Nada é nosso! Só dando é possivel ser feliz! Desejar tudo de bom para o outro! Querer que a mulher que pensava ter "perdido" esteja feliz agora mesmo sem ser a meu lado! Darmo-nos aos outros de todas as formas, de todas as maneiras. Não pretender ser amados. Amar somente. A felicidade está em amar, tão somente em amar e sentir que amar é estar feliz consigo mesmo.
Amar sem posse nem destino. Amar incondicionalmente.
Não chorar sobretudo porque é preferivel sorrir e mesmo que por dentro a alma se parta aos bocadinhos que nos reste um sorriso nos lábios para dar aos outros. Foi isso que aprendi ao fim de muitos anos. Não fui, não sou nem quero ser dono do que quer que seja. Quero olhar e desejar que todos estejam melhor do que eu. Escolho o melhor para ti. Ao fazer isto faço-o com alegria, com gosto e sou feliz!
É esta a resposta: não há caminhos para a felicidade; esta, é o caminho. Não interessa que caminhos havemos de percorrer, o que interessa é caminhar com a certeza de que "escolher" o melhor para o outro é a base do meu bem estar. Sentir que com essa "escolha" eu estou a caminhar e não à procura do caminho.
Estas palavras não "servem" para todos, eu sei. Mas não sei outras. Tudo o que possas ler nos meus escritos são uma mistura de credulidade e de incredulidade; são uma mistura de fé e de raiva; são uma mistura de sim e de não. Pela simples razão que precisamos dessa "balança" para o nosso equilíbrio. Mas, o cerne da questão está lá, nas entrelinhas e estas são as que acabo de te escrever.
Não sei se era "isto" que querias ouvir, se era esta a "mão" que precisavas; acredita que é a única que tenho e dei-te o que tinha: tempo, palavras e um desejo firme de felicidade...
E, para já, escolho para ti um sorriso.

19/11/2004

primeiro aniversário

..........faz hoje um ano que, no Sapo, muito timidamente, nascia o "Lobices"... por entre voos palermas dos "meus" pardais, por entre palavras da minha alma e por entre olhares sobre os meus pontos cardeais... por entre risos, sorrisos e lágrimas, por entre gargalhadas e gritos, por entre lembranças e desejos, ele se foi gerando a si mesmo... aqui o tendes, cheio de nadas e vazio de tudos... obrigado a todos vós e o meu eterno amor...

18/11/2004

sonho

Vá, tirem-me tudo…Eu me desnudo num gesto simples e urgente; tu e toda a gente: Tirem-me tudo, tirem-me o corpo, a alma, o sorriso e a calma; tirem-me o juízo, a paz, a rectidão…Tirem-me o siso, o beijo e o riso; tirem-me o sol e a lua… Façam um longo rol; tirem-me tudo. Eu me desnudo. Tirem-me a pele, a voz, o coração. Tirem-me as mágoas e as roupas e a saudade; tirem-me o peito e o respeito e a verdade; tirem-me o ontem, o hoje e o amanhã: tirem-me tudo mesmo que seja já... Eu me desnudo: façam uma lista e de nada se esqueçam; façam revista; tirem-me tudo à chegada ou à partida. Tirem-me tudo, eu me desnudo e à vossa disposição me ponho...mas, por favor, não me tirem o sonho...

17/11/2004

imagens

“…encosto a cabeça no vidro semiaberto e fecho os olhos por segundos; pela frincha sai o fumo do cigarro ao mesmo tempo que as gotas da chuva varrida pelo vento tenta entrar com força. Não há lágrimas que se comparem às que batem no tejadilho do carro; o vento sopra forte de sul e as ondas alterosas mostram-me um mar agitado porque de si próprio aquelas lágrimas haviam saído uns dias antes. Percorro a visão até ao horizonte cinzento-escuro e vejo um relâmpago descer sobre as águas. Imagem bela e soberba. O céu zangado como me ensinaram em criança. O interessante era terem mais medo do trovão do que do relâmpago. Havia uma cantilena que rezavam fechadas no quarto; algo que no meio das palavras semi comidas pela reza eu percebia algo como santa bárbara; mais tarde vim a saber que Santa Bárbara tem a ver com as trovoadas, dizem. Imagens da infância que recordo com saudade. Um corpo deitado no chão da sala, uma chupeta e um açucareiro ao lado; e lá ia eu molhando a chupeta no açúcar e chupando; ainda hoje gosto de comer açúcar. Um corpo escondido no meio do centeio que não se dobrava pelo vento; um corte num pé provocado por um vidro escondido. Umas mãos pequenas pegando nas pombas que existiam no pombal do pai. Uma gaveta com postais antigos do Brasil que meu avô trouxera. Um retrato enorme dele e de minha avó no dia em que casaram, pintado a carvão. Era imponente. Um fogão de lenha crepitando. A chuva que entrava pelo vidro começou a molhar-me a face e a cabeça e o cigarro já me estava a saber mal. Liguei o motor, fiz marcha-atrás e arranquei dali para fora. Para lá do mar ficava o sonho, o sonho que sempre tive de o enfrentar, o sonho que sempre tive de me meter dentro dele e o amansar. Nunca conseguido. Os faróis foram ligados porque a penumbra já era demasiadamente escura para ser dia. A noite que se aproximava iria brindar-me com mais recordações; é isso que faço para adormecer todas as noites; relembro imagens distantes e tento reconstruir a vida que já não existirá nunca mais. Puzzles de imagens, de sons e de choros e de risos, de quedas, de corridas, de corpos cheios de calor abraçando-nos. Porque me faz tanta falta esse abraço de outrora? A estrada à minha frente ainda era longa e a noite me esperava…”

roca



...onde o vento sopra gotículas salgadas de um mar revolto de amor...

16/11/2004

identidade

Vagueio o meu corpo por entre o cimento da cidade; não lhe encontro identidade; não sei onde estou. Apenas vou. Saí há pouco de mais um Bar. Que bebi desta vez? Não sei mas também não interessa. O telemóvel continua mudo e nem uma mensagem tem e eu não tenho tempo para escrever; só tenho tempo para esquecer e também penso que já não sei o que dizer. Procuro as palavras mas parece que as perdi. Perdi as palavras; ando atrás delas; perderam-se no sótão da minha memória e a chave do baú há muito que já lá não mora. Busco incessantemente as letras para compor palavras mas não as encontro e desisto; mas, desisto de quê? Não sei. Desisto. Também se vive para desistir; não vivemos somente para insistir. Mas as letras e as palavras são fugidias, escorregadias, lembram momentos que já não encontro; são perdas deixadas (ou deitadas?) ao vento, lamento.
Cruzo-me com as pessoas e sinto-lhes o odor; interessante, mesmo com um pouco mais de álcool, eu consigo sentir o cheiro: sinto os perfumes, a transpiração, um cheiro a urina naquela esquina, o cheiro a fritos que vem daquele restaurante rasca; um pequeno aroma a rosas naquele varandim misturado com o perfume do tabaco. Ouço também os ruídos: os carros, as motorizadas, as conversas mudas, as tosses, o grito, o berro, a sirene do carro da polícia, a mulher que chama um cliente ali à frente.
Mas somente vejo os meus pés caminhando no piso molhado da última chuva que caiu. O sol fugiu cedo, deitou-se ainda ia o dia a meio; deixou-me só. Já não sei onde deixei o carro. Mas, para que o procuro se sei de antemão que ainda vou parar num reles lugar para beber mais um gole? Sinto-me mole. Sem forças e empurro as pernas para que o corpo não fique parado. Está frio neste lado de mim. Não sei como está o tempo desse lado, excepto que de vez em quando algumas gotas de chuva me vão molhando. Vagueio o meu corpo por entre o cimento da cidade e continuo a não lhe encontrar a sua identidade.
Onde estou? Que faço aqui? Para onde vou?

verticalidade



...sem legenda...

15/11/2004

frio

Tenho frio, tenho mesmo muito frio.
Sinto um arrepio dentro de mim que me faz encolher a alma; dobro-me sobre mim mesmo e procuro a razão do frio que sinto; sinto-me cheio de um vazio que se instala no meu cérebro e deste passa para o meu ser. Sinto-me entorpecer e as pernas dobram-se e enregelam. O frio que sinto faz-me tremer; não vejo sol dentro de mim e a lua passou já muito ao largo e não deixou rastos. As estrelas estão longe e não me iluminam o suficiente para aquecer o meu coração. É tudo em vão. Todo o esforço que faço para me manter à superfície ainda me magoa mais porque as forças me abandonam e o corpo rejeita energias que gasto nesta viagem. E é apenas a minha imagem. Mas olho para lá e não vejo nada que me faça regressar. E desejo cada vez mais sair, fugir mesmo sem saber para onde ir; não é dilema não saber o que aí vem; sabe-se que se está a ir nessa direcção e deixamo-nos ir como folha perdida nas águas turbulentas de uma sarjeta suja de pó e vazia também de tudo. Deito-me dentro de mim e adormeço no meu sonho sem dormir; é um sonho acordado de tão cansado que nem o sono sossega e não me dá trégua.
Tenho frio, tenho muito frio.
Sinto um arrepio de novo e mais uma vez me encolho e olho para dentro do copo que tenho na mão; é um copo vazio como eu e também está frio; peço a alguém que o encha de novo e dizem-me que não, que já bebi demasiado; mas eu sei que não, ainda consigo entender o que me é dito e porque razão ouço este imenso grito.
Tenho frio, tenho muito frio.
Saio num tropeço dum trôpego andar. Passo pelo espelho e alguém do lado de lá olha para mim e sorri; é alguém que eu já conheci, alguém que já esteve aqui comigo, dentro de mim; nunca mais o vi; por onde andará? No entanto, foi simpático, acompanhou-me até à saída; não o vi mais; não havia mais espelhos naquela sala daquele bar. Abri a porta de par em par. Respirei o ar frio da noite ainda mais quente do que o frio que eu sentia dentro de mim. Olhei o mar que se estendia para lá daquelas escadas que desciam para ele, ele que me esperava depois do abismo; olhei-o e ele riu-se numa risada tremenda que me fez encolher e de novo ver que já nada estava ali a fazer. Preciso de dormir, mas um sono que jamais termine; preciso de dormir e afinal o carro está ainda ali; é aquele preto; tem aros prateados nos faróis mas não tem luz, estão apagados como eu. A chave está na minha mão e abrir a porta não custa; já nada me assusta porque o frio me tira a percepção da realidade; tenho apenas uma vontade, dormir, deixar-me ir e não saber nem como nem para onde.
Tenho frio, tenho muito frio.


13/11/2004

decidir

Há sempre algo que nos impede de fazermos o que achamos que não devemos fazer; como que, dentro de nós, houvesse uma espécie de censura que velasse pelas nossas acções. O que podemos e o que não podemos fazer é algo que, primeiro, vai à loja da censura e só depois segue para fabrico. A forma final do produto é que poderá ser diversa daquela que foi projectada. Onde nos leva tal atitude? Que castração nos provoca semelhante sujeição? Porque não fazemos apenas o que nos apetece fazer? O que é isso de consciência? Uma espécie de balança com uma série de pratos onde são pesados todos os prós e os contras daquela acção planeada. Porém, porque razão agimos de imediato, sem pensar, em momentos de crise duma forma a que chamamos de instinto? Ou será que mesmo antes de agir instintivamente, a loja da censura funciona mesmo sem darmos por isso? Será que há, na mesma, um pesar na balança? Saltamos de imediato para o lado para evitarmos ser atropelados por uma carro mesmo sem vermos que podemos cair na valeta cheia de água suja da sarjeta; fugimos rápidos, em caso de incêndio por exemplo, da varanda para a rua sem olharmos à altura que nos separa dela e sem pensarmos que podemos partir uma perna. Porém, no dia a dia das nossas acções habituais de vida em que o instinto não é preciso, as nossas atitudes são “pesadas” antes de as tomarmos, como se de uma poção mágica se tratasse e fosse preciso tomar a medida exacta. Então, hesitamos antes de agir e somente depois actuamos. As nossas escolhas devidamente pensadas tanto podem dar para o certo como para o torto; não há maneira de sabermos se aquela decisão, ainda que devidamente gerida e equacionada, vai resultar em pleno. Mais tarde é que saberemos o resultado. Na verdade e a experiência mostra-nos isso, quando usamos o instinto, verificamos o resultado da acção então utilizada, de imediato, quer seja bom ou mau; também, de imediato, ficamos felizes ou infelizes com a opção tomada. Já quando apenas a tomamos depois de devidamente ponderada a questão, somente muito depois veremos o resultado; e até podemos viver angustiados aguardando o desfecho; será que fiz bem, será que fiz mal? E agora? Bem, só tenho que aguardar e esta espera, esta expectativa provoca angústia, provoca danos, provoca dor. Que faço? Escrevo um texto sobre que tema? Bem, vamos lá ver. Penso, repenso e nunca mais me surge a inspiração para desenhar algumas letras sobre um tema que nunca mais se faz luz em mim. Então, de imediato, começo a teclar instintivamente; saiu o que acabaram de ler; ao mesmo tempo que escrevia ia vendo o resultado de imediato daquilo que surgia no monitor. Não houve angústia; não houve dor. Utilizem o instinto o mais que puderem. Vão ver que, geralmente, dá certo. Também o pior que poderá acontecer é terem de perder tempo a ponderar a questão. Mas será que ponderar é assim tão mau? Não sei, a decisão é sempre individual. Façam o que vos aprouver; façam o que vos der na real gana. Sejam felizes nem que para isso seja preciso chorar um pouco. É que, às vezes, umas lágrimas clarificam a situação e o panorama, após o choro, é um pouco mais claro!...

11/11/2004

momento divino

Desde sempre me interroguei sobre o porquê do orgasmo ser algo que não tem similitude com qualquer outra sensação do corpo humano; ou seja, os sentidos proporcionam-nos sensações definidas e concretas que sabemos entender e para além de as poder referenciar, podemos também encontrar algumas parecenças entre umas e outras; estou a lembrar, por exemplo, o “prazer” de aliviar a bexiga, o “prazer” de espirrar, o “prazer” de inspirar a maresia, o “prazer” de saborear um bom gelado, etc. Nesses prazeres, podemos encontrar algumas parecenças entre uns e outros mas todos eles definidos, circunscritos e absolutamente “normais”. O prazer no momento do orgasmo é algo que transcende todos os outros prazeres; é o prazer supremo; o cume dos sentidos; o topo de gama!... Em toda esta minha vida ainda não encontrei nada melhor, nada que proporcionasse ao meu corpo (e penso que ao meu espírito) a escalada ao pico dos prazeres sensoriais. É algo que não tem explicação. Podem vir com teses neurológicas, fisiológicas e outras que tais mas a verdade final será sempre a mesma: maior e melhor prazer que um orgasmo, não existe!... Daí que, me tenha interrogado ao longo da vida sobre o porquê de tal sublimação! Ou seja, porque razão é aquele e não outro o prazer maior. Há filosofias que defendem a ideia de que o sexo é a sublimação por excelência na medida em que significa a união que cria vida. Repensei e admiti que o orgasmo também pode ser obtido por estimulação solitária, a vulgar masturbação. Porém, aprendi ao longo da vida que há diferença no prazer que se obtém no orgasmo provindo dum acto solitário e o que se obtém na junção de dois corpos no acto da mais pura cópula, entenda-se vaginal. Assim, fui procurando tentar entender porque razão a “natureza” premeia com um prazer sublime todo e qualquer acto sexual na junção de um pénis com uma vagina. Desde a necessidade de procriar para a continuidade da espécie, até à frase batida de que até os animaizinhos gostam, a verdade é que de todos os actos humanos, aquele é o topo de gama! Só há uma razão: aquele momento é o momento divino, é o momento em que Deus está em nós e se sublima, sublimando-nos!... É o momento em que Ele vive, em que Ele vibra… É o momento em que Ele diz que existe, que está, que é… é o momento em que Ele nos penetra em totalidade e num único e breve instante Ele se reduz à insignificância do Homem e se transcende na divina certeza de que aquele é tão-somente e apenas o momento da fusão da carne e do espírito… o fugaz momento em que o Homem se torna Deus!...

09/11/2004

...Ensaio sobre a solidão

......Depressa me canso de mim.

Olho à minha volta e só vejo recordações. Uma terna claridade (ou será obscuridade?) invade o meu quarto e me rodeia de mansinho. Já reparei várias vezes: vem sempre acompanhada do silêncio! Nunca soube o porquê de tal evento. É uma luz difusa, lenta, como que surgindo a medo e com ela, um opaco silêncio; algo que nada traz a não ser paz. Mas trazê-la já é bom. E é nesses momentos que me sinto só. E sabem porquê? Porque não tenho com quem partilhar esse momento! Algo que sempre desejei fazer um dia na minha vida: partilhar a minha solidão. Dizer a alguém: “Vês? Estás a ouvir? A minha solidão está aqui, é isto que vive aqui comigo. Entendes?” Mas nunca consegui e nunca o consegui porque nos momentos em que a solidão me visita eu nunca estou acompanhado; engano, estar acompanhado estou mas apenas de mim mesmo e dessa luz e desse silêncio. Já somos três. Estendo-me então no leito dessa luz (ou será escuridão?) e deixo-me levar pelo barulho do silêncio que me invade. Nunca é tarde para experimentar novas sensações, só que esta é já demasiadamente minha conhecida e então apenas nos olhamos e nos aceitamos mutuamente. Nada mais fazemos senão partilhar aquele momento, uma partilha a três numa solidão solitária de um só. Estendido nela e com o silêncio deitado a meu lado, olhamos o tecto que lentamente se separa de nós em tons de cinzentos cada vez mais escuros; passo os braços pelo silêncio e aperto-o de encontro ao meu peito. Sinto o seu respirar lento e compassado; é um som simpático, eu sei, mas ao mesmo tempo ousado na medida em que invade o som do bater do meu coração; e o silêncio deixa de ser silêncio para ser um baque surdo ritmado aqui, ao meu lado, deitado. No entanto, continuo abraçado a ele e ele sente-se bem porque acarinhado. É um abraço puro mas forte; ingénuo mas apaixonado. É apenas um abraço de silêncio compartilhado num leito de claridade a escurecer em lentos tons que tem o anoitecer. Porém, já quando o tecto se separa de nós e nos abandona entregues que ficámos à luz das trevas que entretanto nos envolveram, o silêncio se aperta contra mim e me possui. Penetra-me fundo e a respiração torna-se ofegante, sufocante.

O que até então era um prazer compartilhado passa a ser dor e algo que corrompe. Penetra-me cada vez mais fundo e a dor aumenta. O bater e o som do meu coração ultrapassa o silêncio que entretanto se esvai num orgasmo de sons delirantes de espasmos gigantes que se avolumam dentro de mim. O tecto já não existe, a obscuridade ainda persiste com mais intensidade. É um estar sem vida, sem morte e sem idade. Apenas habita em mim numa eterna cumplicidade. Respiro o espaço que me rodeia. E a escuridão cai sobre tudo e me envolve como uma teia. Já tenho mais uma companhia. O doce sono vem de mansinho amparar meu corpo e cobre-o com carinho. Adormeço lento, extenuado de tanta amargura, numa vã procura do próximo amanhecer que de novo me vai trazer o fim de tarde, neste terno ciclo de amor e ódio em que espero pela eternidade.

08/11/2004

desejo

...te vejo ali, parada, me olhando só... não há palavras, nem medos, nem lágrimas... há apenas um olhar profundo e um toque suave como se fosse o toque mais importante deste mundo... te olho e te fixo a alma... te possuo mesmo antes de te tocar, de te amar, até mesmo antes de te olhar... é tudo muito mais forte do que o meu querer... olhar-te bem dentro mesmo sem te ver... sentir-te só de te desejar, ali, parada numa pose linda, somente a me olhar... fixo tua boca e te sorvo completa... te abraço sem te abraçar... te afago sem afagar... te penetro sem te penetrar... está tudo ali, em ti, a meu lado... basta te desejar... e teus olhos já me possuiram... e teus olhos já me abraçaram... e teus olhos já me sentiram... ali, sem questionar, te estendo a mão... vejo teu corpo a arfar.... e sentes minhas garras te tocar... e teu corpo em minha alma se entregar... tudo tão simples: apenas o desejo de te desejar...

06/11/2004

morrer

«Um até já, meu amor, que por amor se corre e por amor se não percorre; um até já, meu amor, pelas correrias que correste e pelas paragens à minha espera; um até já, meu amor, pelo amor caminhado, pelo amor parado como os dias que correm á nossa frente e nos arrastam irremediavelmente para essa morte; a morte do amor que de amor morreu no dia em que em vez de um até já, me disseste adeus.»

04/11/2004

procura

Não penses que sabes tudo ou que sabes que podes tudo saber; nada se consegue saber apenas com a aprendizagem; é preciso buscar, é preciso viver, é preciso sentir, ser e estar; nada se consegue saber apenas com o olhar; é preciso ouvir, tocar, cheirar…

Usa todos os meios ao teu alcance para que um lampejo de sabedoria surja perante ti, mesmo os meios que não possuis, ou seja, usando a sabedoria dos outros, daqueles que têm algo para te dizer, para te contar, para te oferecer.

Depois, lança esse conhecimento no teu ser; cozinha-o com todos os ingredientes que possas arranjar, tenta um lume brando e usa teu instinto.

O produto final será teu e de mais ninguém; foste tu que o obtiveste com o teu trabalho, com a tua busca, com o teu empenho e não só com o que te deram.

Depois, prova esse produto e digere-o com prudência e com lentidão.

Porém, sempre que possas, usa um pouco de loucura, dá-lhe um toque final, impõe-lhe a tua marca e oferece-o a quem o procura.

Não o retenhas pois de nada te serve guardado no sótão da tua memória.

Areja-o e reparte-o com os outros.

A seguir, procura novo saber.

E repete o processo.

03/11/2004

beleza



...onde o belo se inscreve no inacessível infinito da vida estelar...





(photo from Astro.com)



02/11/2004

parto

Hoje demente, fui com a mente cheia

Para a maternidade das palavras.

Dei entrada num quarto vazio de ideias;

Não vi parteiras nem obstetras,

Nem marquesas nem banco de letras;

Somente paredes brancas caiadas há já muito tempo

Limpas de memórias e de histórias.

Deitei-me e acomodei-me o melhor que pude

Na espera expectante do passar das horas;

Posicionei a mente cheia aguardando

O tempo necessário para dali me vir embora

Com algo que tivesse de mim nascido cá para fora.

Peguei nos fórceps e nos bisturis

E cortei a mente em pedaços;

Forcei a palavra a sair

Mas não dei por nada

Nem que de letras estava a parir;

Apenas esperei que o tempo passasse

Ora lento ora fugidio

De ideias ou demências

Parcas em odes, prosa ou poesia…

Mas apenas saiu a desgraça

Desta imensa sensaboria…

01/11/2004

novembro



...e o sol brilha aqui, mesmo sobre mim, esplendoroso, num esconde esconde onde se adivinha mais alguma luz e mais calor para nos brindar neste início de Novembro...