30/12/2004

natureza



...em finais de ano, a morte marcou presença no oriente (como marca todos os dias em toda a parte do mundo...) duma forma devastadora... que esta "imagem" simples, que de tão simples se torna complexa, assinale tão somente a certeza de que o Homem continua "verde" sentado num "chão" duro que não consegue dominar; porém, que o verde da maçã seja e possa continuar a ser o símbolo da esperança e que a madeira possa simbolizar o espírito que, apesar de todas as vicissitudes, não vergará nunca ao desejo de manter essa mesma esperança no cimo de todos os seus ideais...

29/12/2004

gostaria

Gostaria de vos dizer que tudo vai bem. Gostaria de vos dizer que tudo corre às mil maravilhas. Gostaria de vos dizer que o Homem vive feliz. Gostaria de vos dizer que a Humanidade está vivendo momentos de grandeza tanto física com intelectual ou mesmo espiritual. Gostaria de vos dizer que finalmente a fome acabou no Mundo. Gostaria de vos dizer que não há mais crianças chorando. Gostaria de vos dizer que não há mais pessoas sofrendo o isolamento. Gostaria de vos dizer que os homens de idade um pouco mais avançada sorriem. Gostaria de vos dizer que finalmente os governantes deste Mundo chegaram a acordo e que todos se uniram para desenvolver a paz, a ciência, o bem comum, a democracia, o abraço fraterno. Gostaria de vos dizer que a ONU engloba todos os Países do planeta. Gostaria de vos dizer que já não há guerra no Iraque. Gostaria de vos dizer que já não há fome. Gostaria de vos dizer que já não há barracas nos arrabaldes das grandes cidades. Gostaria de vos dizer que já não se vê mãos estendidas a pedir esmola. Gostaria de vos dizer que a Sida acabou, que a ciência irradicou para sempre a doença, que já não há necessidade de Hospitais. Gostaria de vos dizer que já não há prisões, que o crime acabou, que os homens já não precisam de roubar porque possuem bens. Gostaria de vos dizer que tudo o que nos rodeia é limpo, é ecológico, não faz mal à saúde. Gostaria de vos dizer que já não se matam focas, nem baleias, nem renas, nem ursos brancos, nem leões, nem tigres, nem homens. Gostaria de vos dizer que os rios já não estão poluídos e que as praias não estão sujas. Gostaria de vos dizer que se acabaram as discussões, e que o consenso é geral. Gostaria de vos dizer que já não há droga das escolas. Gostaria de vos dizer que os brinquedos não incluem os que podem induzir à violência. Gostaria de vos dizer que acabaram os assaltos, os raptos, as violações. Gostaria de vos dizer isto tudo mesmo sabendo que seria uma utopia... Gostaria.

Mas... não posso !

28/12/2004

time



...somewhere in this blog, a simple but mysterious "M.", wrote: "...Late in time but in nothing more..."

26/12/2004

realidade

...ainda há bem pouco tempo, há minutos, aterrei em mim mesmo e confirmei a minha "nudez" de tudo... indaguei o porquê das coisas e ainda me senti mais "vazio"; menos cheio de tudo e mais vazio de nada... o que ao fim e ao cabo nos faz estar na "terra" são os momentos em que sonhamos que não pertencemos aqui: - é nesses momentos que na verdade somos totalmente felizes...

22/12/2004

natividade



...este é o meu presépio... singelo... o suficiente para vos desejar a Todos, do fundo do meu coração, um FELIZ NATAL cheio de amor, porque Amar foi, é e será sempre o caminho...

19/12/2004

acordei 1 (primeira carta)

“...acordei por volta das 3 e 15 da manhã... sim, era isso... olhei para o relógio da mesinha de cabeceira e marcava 3 e 15... é um relógio daqueles de ponteiros luminosos. Olhei para o tecto sem saber porque razão acordara, mas lembro-me que talvez tenha ouvido a porta de um carro, lá fora, a bater ao fechar-se... olhei de seguida para os buraquinhos das frinchas da persiana da janela e divisei a luz da noite... a rua tem candeeiros e vê-se essa luz ainda que difusa mas vê-se. Senti o corpo morno e passei a minha mão pelos meus seios acariciando os bicos do peito. Deixei a minha mão descer pela barriga até sentir o meu sexo e desejei ter-te ali comigo... a minha mão acariciou os pelos púbicos e lentamente introduzi um dedo na minha vagina. Deixei-me estar assim durante uns momentos e lembrei-me de ti... lembrei-me de todos os momentos que te tive e que a meu lado te senti... Sabes, quando me abraçavas e me sentia pequenina, dessa forma mágica que tens de me abraçar... quando me beijavas e me sentia desfalecer ao sentir a humidade dos teus lábios... sabes, não sabes? Sei que sim. Lembras-te daquele dia em que nos encontramos pela primeira vez? O dia em que nos olhamos e os nossos corações bateram? Aquele dia mágico que marcou o resto dos outros nossos dias?
...Acordei sem saber por razão acordava mas penso que a saudade marca o sonho e, se calhar, estaria a sonhar contigo. Lembras-te daquele dia em que estavas sentado no sofá da nossa sala e me ajoelhei a teus pés? Lembras-te de termos feito amor na mesa da cozinha? Lembras-te daquelas férias que tivemos na montanha e lembras-te de certeza de termos feito amor deitados naquele chão branco de neve... lembras-te de, no fim, teres lavado o teu sexo com a fria neve que estava ao nosso lado? Lembras-te como ele ficou pequenino por causa do frio? Lembras-te como nos rimos às gargalhadas? E daquele dia que fizemos amor no carro? A meio deste um grito porque te aleijaste numa perna no travão de mão? Sim, porque não te haverias de lembrar, se eu me lembro tão bem... e daquela outra vez na praia, escondidos numa duna, quando eu fiquei cheia de areia...
...Acordei às 3 e 15 e já são 3 e 40!... 25 minutos a pensar nisto... sinto-te em mim, meu amor e não estás aqui presente... mas sinto-te... sei que sou eu que me acaricio mas é como se fosses tu... sinto como se fossem as tuas mãos, o teu corpo quente, o teu hálito a maçã que costumavas comer a toda a hora... eras doido por maçãs... nunca soube porquê... nunca considerei isso importante mas era importante para ti, não era? Os teus beijos quentes e húmidos num saltitar constante entre os meus mamilos e a minha boca. Como beijavas tão bem... mas sei que mesmo que beijasses mal, para mim era sempre bom, doce, quente, por vezes abrasador... como eu costumava dizer que acendias em mim o fogo da lareira sempre acesa... eu sei que fui sempre “louca” por ti mas tu sempre gostaste de mim assim... eu sei que sim... eu sentia que tu gostavas de mim assim... tu também eras louco, sabias? Sim, a tua loucura me incendiava e quando nos rebolávamos na cama parecia que tudo se partia e a cama chiava... como nós nos riamos disso... coisas giras e loucas, não eram? Meu bem, como me lembro de ti assim? Porque acordei eu a pensar em ti? Porque é que ainda penso em ti ou porque é que estou sempre a pensar em ti? Sabes que não há um único momento da minha vida que não pense em ti?
...Eu sei, eu sei que dizem que estou louca... mas eles não sabem que já não estou louca, já estive, sim já estive louca por ti... agora já não estou... estou feliz, triste mas feliz e tu sabes porquê, não sabes? Sabes, eu sei que sabes.
...Já são 4 da manhã. Acho que vou dormir um pouco. Penso que vou sonhar contigo e depois... depois voltar a acordar para pensar mais uma vez nos nossos dias felizes, nos dias que passamos juntos, naqueles dias em que a loucura era permitida e nada mais interessava... até ao dia em que te foste. Nunca soube porquê, porque me deixaste, porque não me quiseste mais... porquê, meu amor? O sono está a regressar... sabes, deram-me mais uma injecção e vou ter de dormir, sim? Eu vou dormir mais um pouco, meu amor... mais um pouco... mais um pouco... como ainda te amo... sim, serei sempre a tua Maria, meu amor... tua para sempre... para sempre...
a tua Maria..."

desejo



...desejo forte de um dia assim quando, neste Domingo cinzento, apenas olho para a chuva que cai aqui bem perto (e também dentro) de mim...

18/12/2004

completo

...no meu ventre não escondo nada... nem a noite nem a madrugada... no meu ventre guardo a mágoa... deste meu peito raso de água... no meu ventre explode o amor... que solto ao vento, se esvai... e em pélagos de sangue... no meu rosto ele cai... no meu ventre explode o amor... sentido, dorido, sofrido... amor passado, presente e futuro... no meu ventre escondo tudo... e com ele expludo... em míriades de estrelas... que vagueando pelos céus... enchem os olhos teus... no meu ventre escondo palavras... do meu ventre dou à luz as palavras... do meu ventre... de bem dentro de mim... me dou completo

não



...não é o Metro do Porto... mas gosto do "tom cinza" da foto...

17/12/2004

boletim clínico

...não foi possível salvar o olhito do Black... assim, ontem à tarde foi operado para se proceder à extracção do mesmo...
...encontra-se bem e em recuperação... ele agradece todas as vossas mensagens de apoio e carinho e envia-vos um sorriso de gratidão...

16/12/2004

inteligência pura

...tal como vos havia contado, no passado dia 20 de Setembro, o meu amigo Black foi atropelado por um outro animal que nem sequer parou apesar de ter dado pelo evento; na altura, e como existe aqui ao lado uma Clínica Veterinária, o Black foi lá internado e bem tratado; aos poucos lá foi recuperando e passado um mesito voltou ele novamente à "brincadeira" preferida que é andar a ladrar aos carros que passam; é um cão conhecido de toda a gente e todos gostam dele porque ele gosta de todos...
...ontem, de manhã (eu não estava em casa mas minha mãe me contou e depois vim a saber o resto) o Black surge aflito na cozinha aqui de casa, muito cansado, língua de fora e a pingar sangue; minha Mãe aflita gritou por ele mas ele deve-se ter assustado e então fez o seguinte:
- desceu as escadas, rumou ao portão, saiu para a rua e dirigiu-se à Clínica; subiu as escadas desta, entrou na sala de espera, entrou pelo corredor adentro e entrou na sala de consultas onde se encontrava a Médica de serviço; já junto dela, com a pata chamou-lhe a atenção e ela viu de imediato que o animal estava ferido!...
...ainda lá está em observação...
...falei agora com o Médico, o Dr. João, que me disse que provavelmente o Black vai ter de ser operado para extração do olhito traumatizado...
...o Black não pode ser preso a uma corrente; o Black é o espírito da liberdade e eu não o farei nunca; por outro lado, o próprio Médico diz que prefere ver o Black morrer atropelado, mas feliz, do que morrer aprisionado e infeliz...
...não conheço (nem os Veterinários conhecem) caso algum em que um animal tenha recorrido por si mesmo ao "seu" médico para ser tratado!...
...digam-me se isto não é um puro exemplo de pura inteligência...
...digam-me se não é motivo para amar ainda mais os animais...
...para todos vós, um sorriso do Black (porque apesar de tudo, ele está lá com um sorriso no focinho)

15/12/2004

beatriz



...e porque hoje, a minha netinha, faz 8 anos, como não podia deixar de ser, lhe deixo aqui um beijo enorme e uma das minhas preferidas rosas, a dourada, porque dourados são os seus cabelos...

13/12/2004

universos

…tenho “defendido” há já alguns anos, a ideia de que o Universo não é aquilo que nos dizem que ele é mas sim aquilo que eu digo que é! Isto nada tem a ver com presunção, tem a ver com a realidade que cada um de nós “fabrica”…Não és tu ou ele que me diz o que é a minha realidade ou a minha verdade, da mesma forma que ninguém me diz o que é ou como é o Universo; sou eu que “faço” o meu e cada um de nós “fabrica” o seu próprio Universo…O conhecimento que cada um de nós possui da realidade que nos cerca, é um “saber” individual (ainda que possua saberes colectivos) pois ele é obtido através dos nossos sentidos que transmitem ao nosso cérebro o que nos rodeia…Nada mais “objectivo” do que se afirmar que um invisual não “vê” e por muito que se lhe diga o que é a Lua, ele fará sempre um ideia por ele “fabricada” e nunca conceberá a “minha” Lua…A Lua que eu vejo não é a mesma que ele “vê”…Daí que, não existe um Universo único igual para todos; existem biliões de Universos, um para cada um de nós, um para cada ser que o vê, o cheira, o ouve, o saboreia e o sente…Não é difícil “provar” esta “tese”; parece que numa forma primária a simplista, todos estarão de acordo comigo, já que cada um tem a sua própria verdade, ainda que existam verdades universais (sei lá, por exemplo, o sol é uma estrela e está quieto, sendo os planetas que giram à volta dele…) elas não se “cimentam” universalmente na medida em que esse “saber” não é possuído por todos os seres humanos…Geneticamente trago comigo a memória dos genes de meu pai e de minha mãe; trago comigo alguns saberes mas outros foram adquiridos por mim e não por eles; criei os meus “dados”, elaborei as minhas “listagens”, fiz os meus “mapas”, etc., em tudo de uma forma muito diversa dos deles…Assim eu tenho o meu Universo e minha mãe, por exemplo, com quem vivo num mesmo espaço e num mesmo tempo, tem o Universo dela…O meu Universo tem galáxias; o Universo de minha mãe não tem…O meu Universo tem um satélite que gira à volta do meu planeta, que recebe a luz do sol e a reflecte para a terra; o Universo de minha mãe tem uma lua que vai crescendo e que tem luz à noite e que depois desaparece mingando aos poucos…O meu Universo tem sistemas estelares a milhares de anos-luz; o Universo de minha mãe tem pontinhos brilhantes que se acendem à noite e que estão ali em cima…O meu Universo tem o sentido da perspectiva; o Universo de minha mãe não tem…O meu Universo tem coisas imensas que não existem no Universo de minha mãe…Então, como pode ser?…O grande “problema” é que os nossos dois universos não se complementam nem interagem; pura e simplesmente não coexistem por serem diferentes; desta forma, pergunto como posso existir num Universo onde minha mãe não existe e, da mesma forma, como pode ela existir no meu?!...A que se deve então a existência de dois universos distintos se ambos possuímos idênticos sentidos? A resposta deverá estar, por certo, na aculturação de cada um de nós ou no acumular de conhecimento que cada um foi adquirindo… A pergunta seguinte será saber se o Universo é uma “forma” de conhecimento ou uma verdade universal?...

12/12/2004

mãe



...e porque hoje, minha mãe faz 89 anos, lhe ofereço uma rosa porque rosada ainda é a sua face; e ela fez questão de referir que uma das prendas que recebeu foi a vitória do seu amado F. C. Porto com a conquista da Taça Intercontinental...

10/12/2004

anil

"...no desespero da minha impotência febril duma vida gasta no mundo que me rodeia, eu vejo a tristeza estampada em teus olhos, cor de anil, azulados pelas mágoas sofridas num mundo perdido na dor que odeias; pela razão do existir, sem poder deixar de permitir que a vida dite as vindas e as idas nas lágrimas dum olhar pendentes, de certezas gastas e de vazios esgares...
...por não haver pão, nem ceias, nem lares...
...e aqui estou, febril de medo e de raiva, por não ter força, nem poder para o mal afastar, desaparecer...
...e aqueles teus olhos de anil olhar, fugidios de um afago, dum apelo, dum sorrir, quem sabe se dum dar, perseguem-me no perto do aqui estar, no longe do não saber partir e me ver ficar...
...sem nada fazer para aquela cor de anil, mudar..."

09/12/2004

obrigado

...um obrigado do fundo do coração a todas as pessoas que, duma forma ou de outra, por aqui, por mensagens ou por telefonemas, se associaram ao meu aniversário e me deram a alegria de me saber acompanhado, no mínimo, em espírito...

...para toda a gente o meu habitual terno e eterno abraço...

08/12/2004

birthday



...e porque hoje comemoro mais um ano de vida, venho aqui referir esse facto na expectativa de me ir lembrando sempre que ela, a vida, mais não é do que o que dela fizermos, o que dela quisermos e principalmente o que para ela escolhermos!... O meu terno e eterno agradecimento pela vossa habitual presença...

07/12/2004

ser

"...meditar um pouco, ainda que no bulício da vida ou no deambular dos silêncios que me cercam; meditar um pouco, mesmo que o vazio me preencha e nada me faça sentir que estou; meditar um pouco, ainda que o nada seja o tudo que procuro..."

06/12/2004

diurno

...queria tanto ser o mar... Para te sentir dentro de mim a nadar, esbracejando vigorosa e forte em longas braçadas de vida e respiração molhada... Para te sentir a pele gotejada da minha maresia em total contorno da tua existência e contínua persistência... Para teus lábios beijar com o sal ardente deste meu ser em contínuo movimento que de doirado e sedento se move para dentro... Para teu corpo desejar e em ondas te tornar e à minha volta te jorrar quando na cálida areia me espraiar... Para sentir o calor intenso do sol me banhar, aquecendo-me para que teu corpo não tremesse de frio ao em mim penetrar... Para teus seios ondular na massa informe do meu ser que de moldável e suave permite a ternura em mim nascer... Para sentir tuas fortes pernas afastar-me e em desenhos lindos e simétricos vencer a maleabilidade do meu ventre, para sempre... Para em gotículas me espalhar na tua vida em crescendo quando nua na praia secas teu corpo ao vento num lânguido movimento... Para te chamar e te ver correr para mim, a saltar, como gazela fugindo num monte de alguém que a quer caçar... Para te chamar e te sentir mergulhar de braços estendidos e de cabeça defendida, numa entrada sulcando meus sentidos... Para te aconchegar dentro de mim e com ternura te abraçar num longo e eterno movimento de loucura... Para viver o instante do meu único momento insano na procura do ser que me fizesse ver que mais não sou que o desejo de te ter...

...e retomado do fim de tanto prazer, depositar-te na areia doce e quedar-me duma vez por todas, ali, parado, para te ver!...

...Como eu queria ser o mar...

05/12/2004

leito



...ali em baixo, num outro comentário, Betânia pergunta porque razão a minha paixão por Tomar; que melhor razão poderá haver na que nos apraz tão somente recordar locais por onde a nossa "caminhada" prosseguiu um rumo, por onde os sons do passado ressoam ainda nos nossos corpos e nas nossas almas, por onde os sentidos remontam a milénios de vida, de vivências sofridas?... Para além disso tudo, Tomar contém "história", Tomar contém "magia" e sobremaneira, memória!...

04/12/2004

nocturno

...Em frente ao espelho da cómoda do teu quarto, sentada num banquinho forrado a tecido de cortinado vermelho, penteavas os teus cabelos, num ritual que funciona mesmo sem dares por isso... a escova passava ora uma, ora duas vezes, de cima para baixo e alisava os teus cabelos sedosos, cor de mel e de marfim... brilhavam no espelho e te revias momento a momento numa expectativa de mudança, o que não acontecia pois não podias ficar mais bela do que aquilo que já eras... a beleza em ti não residia nem morava ... era!... A tua camisa de noite, acetinada bege, de rendas sobre o peito alvo de seios firmes e redondos, deixava transparecer a cor da tua pele suave e doce ao olhar sem ser preciso tocar... a tua cama de lençóis de prata, aguardava o teu corpo numa ânsia lasciva de quem à noite, só, te espera num desespero de intocabilidade... e tu, demoravas... da cómoda tiraste um frasquinho de perfuma e te ungiste com ele o que provocou um agradável respirar a todos os móveis que te rodeavam... e a tua cama, ansiava pela tua presença... e o teu corpo demorava a conceder-lhe esse desejo... levantaste-te de frente do espelho e te miraste novamente de corpo inteiro e gostaste da tua imagem alva e bela naquele quarto iluminado pela tua presença... olhaste de soslaio e sorriste... sentaste-te na beira da cama e esta suspirou docemente perante a antevisão de que breve te possuiria.
Tiraste os teus pézinhos leves de dentro dos chinelos de cetim vermelho, levantaste um pouco o lençol e te entregaste total e lentamente ao prazer de estender do teu corpo e da entrega final ao teu leito... a tua cama nem sequer se moveu... aquietou-se para não te perturbar, para que não te arrependesses daquilo que acabaras de fazer, com medo que te levantasses e ela te voltasse a perder... a tua cama inspirou baixinho a fragrância do cheiro da tua pele e deixou-se ficar aguardando o teu próximo movimento... deitada de bruços te deixaste finalmente ficar e tua cabeça leve pousada de mansinho na almofada, arfava lentamente o teu respirar de prazer por mais uma noite de descanso e de sonhos...
Teus olhos semicerrados viram a lâmpada acesa e teu braço se estendeu ao interruptor da mesinha de cabeceira para a desligar; os teus movimentos eram propositadamente lentos para que o tempo demorasse ainda mais do que aquele que já existia... e a tua cama sentia... na obscuridade do teu quarto, teus olhos semicerrados olharam o tecto e se fixaram na sua alva cor que permitia uma réstia de luz no meio da escuridão... olhaste a janela e pelas frinchas da persiana, divisaste a luz cinzenta duma lua crescente... avizinhava-se uma noite de lua cheia e teu corpo descansou por um momento... a tua cama então suspirou e te abraçou fortemente... em suas mãos te acabavas de entregar... e o sono chegou.... adormeceste... não sei mais o que se passou... a noite decorreu, teu corpo diversas vezes se moveu... a tua cama não se movia, com receio de te acordar; abraçava-te sempre para não te deixar fugir... sentia-te sua e possuía-te num sonho imenso de impossibilidade, de impotência, de raiva, por não te conseguir ter tendo-te ali... tua mente adormecida, movia-se e sabia-se que sonhavas... a tua cama te tinha ali, indefesa, sozinha... sonhavas e eu aqui, nada mais te pedia... nada mais desejava...
Queria apenas ser o teu sonho...

03/12/2004

Tomar



...a pedido do Alexandre Narciso, mais uma vista daquela bela cidade...

mudar

Querer (crer) a mudança. Crer (querer) e mudar. Palavras que nos impõem posturas de altivez perante a vida. Quero, posso e mando! Logo, mudo! Porque quero. Porque creio. Mudar. Mas, mudar como? Apenas crendo (querendo)? Basta querer (crer)? É assim tão simples e tão fácil? O desejo deve superar tudo e todos? O nosso querer (crer) sobrepõe-se ao crer (querer) dos outros? Não, não creio (mas quero). Anseio. Desejo poder crer (querer). Desejo poder querer (crer) mudar. Mas a luta é dura, demasiadamente dura. As pedras do caminho derretem-nos a vontade de avançar. E apenas, lentamente, muito lentamente se consegue (querendo) crendo, ir. Apenas continuamos a perguntar: ir para onde? Se não sabemos o caminho?!... A resposta é sim fácil de dar: Basta caminhar! É isso que faço, não porque queira (creia) mas porque o tenho de fazer. Não posso parar, não quero parar; quero caminhar; não porque creia que caminhar deva ser feito mas porque quero caminhar; não porque queira caminhar mas porque creio que devo caminhar. E é esta duplicidade dentro de mim que me está destruindo: o querer (crer) e o não crer (querer); o ir e o ficar; o ser e o não ser. Dilema terrível que destrói. Magoa. Mata. Corrói. E, no entanto, amar é preciso. E, no entanto, sorrir é dever. E, no entanto, caminhar é crer (bolas, nunca querer!). Caminho porque creio. Sei-o!.

02/12/2004

aqui

...as pessoas crescem "suavemente" e "pragmaticamente"...

...disto eu não tenho dúvidas pois tudo o que cresci eu não notei...

...só agora noto e descubro que, apenas, cresci...

...não me senti crescer...


...não senti o tempo passar...

...não peguei no esqueleto e não reconstruí o corpo...

...apenas e tão simplesmente...

...aconteceu...

...estou aqui...

...no outro lado do esqueleto...

01/12/2004

29/11/2004

cota



"...só muito tempo mais tarde do seu uso, eu vim a conhecer o termo "cota" como se referindo a "velhote"... um gajo chato não velhinho mas já velhote...

...nunca liguei muito a isso e poucos se me referiram como se eu fosse um "cota"

...(que raio de calão!... cota!!!... bem... os "putos" lá sabem o porquê...)

...mas dizia eu que quando soube que eu era um desses "cotas" coloquei a minha imaginação a funcionar e dei por mim a pensar que eu era uma pessoa importante... eu era um Cota!... um senhor Cota!... mas que pinta!...

...de cota a cotação é um passo... e dei por mim a pensar qual seria a cotação de um cota... ou, como se mede a cotação de alguém... se é que existe cotação para um cota... bem, mas não interessa... o que interessa é que comecei a adorar ser cota e cada vez mais me sinto um cota melhor (e, às vezes, mais puto que os putos de agora)... e dou por mim a pensar que ser cota é até uma grande coisa... só o prazer de já ter vivido mais tempo que os putos, só o facto de saber que os putos poderão a não chegar a serem cotas, ou seja, daqui a uns tempos talvez já nem se use esse termo e em vez de cotas (com cotação) poderão eventualmente virem a ser chamados de, sei lá, por exemplo... abadias!... que giro... é pá não fica mal... os putos de agora, quando forem velhadas passam a ser chamados de "abadias"... eheheheh... tá criado o termo... quem quizer utilizar não paga direitos de autor... eu cedo os direitos...

...mas, dizia eu, onde é que eu ía? Bem, isto é mesmo de um cota!... E, na verdade, um cota é um chato... mas consegui o que pretendia... fazer-vos ler este texto sem qualquer tipo de interesse! É esta a cotação de um cota:- Fazer de uma coisa sem interesse uma coisa interessante!...

...e agora, já agora, podem-me chamar... abadia!... eheheheh..."


28/11/2004

viagem



"...Eram extremamente apelativos; estavam ali à minha disposição; em cima da mesinha de cabeceira. Era uma caixinha escura que ela usava para ter à mão os comprimidos que a faziam dormir. Nunca liguei qualquer importância ao valor daquela caixinha e, no entanto, ela continha o passaporte para uma viagem, uma sem retorno. Nunca houvera pensado nisso, excepto naquela noite; uma noite em que ela não estava ali deitada comigo (nunca mais estaria); uma noite em que acabara de chegar de mais um bar e depois de ter ingerido um bom pedaço de álcool para me aquecer a alma tão fria e tão dormente que já nem a sentia. Também, para que queria eu uma alma? Que é que ela me dá ou me faz? A caixinha preta continuava ali. Quantos comprimidos teria ela deixado desde a última vez que a encheu depois de os tirar da embalagem de marca do medicamento? A minha mão direita estendeu-se para aquela caixinha preta tão apelativa como tão consoladora pelo imaginário que já me estava a provocar. Não custaria nada e dormiria para sempre; tão bom. Era disso que eu estava a precisar ou seria de mais um pouco de gin? Mas para tomar os comprimidos eu precisava de beber alguma coisa e essa coisa estava também ali à mão; debaixo da cama, talvez também deitada no chão por cima do tapete; teria ainda algum líquido? O suficiente para engolir os comprimidos? Já não tinha forças para me levantar e ir buscar outra garrafa. A caixinha preta continuava ali e a minha mão já estava em cima dela. Senti aquela textura (penso que era marfim) sob os meus trémulos dedos mas senti-a fria e um arrepio percorreu-me a coluna; ou teria sido outro tipo de arrepio? Não sei quanto tempo estive com aquela caixinha na mão. Não sei quanto tempo demorei a tomar uma decisão. Não sei quanto tempo a olhei com um turvo olhar. Não sei porque razão não a segurei. Dei por mim a olhar para ela sem saber para que é que ela servia e naquele momento apenas me apeteceu dormir; tão perto do derradeiro sono; tão desejado; ali tão à mão.

Reparei então que estava deitado sobre o lugar dela com o braço direito estendido para a mesinha de cabeceira segurando a caixinha preta que continha o passaporte para a derradeira viagem; tantas vezes assim estivemos; tantas vezes senti o seu calor, o seu respirar, o seu arfar; tantas vezes assim ficamos depois de fazermos amor. E, neste estúpido momento, repetia aquela posição estendendo a minha mão para uma viagem. Não consegui conter o choro; não consegui aguentar as lágrimas; não consegui segurar a caixinha preta. Não consegui partir. Restou-me a certeza que no dia seguinte teria mais uma noite de frio..."


27/11/2004

damas

Há muito que vivo com duas Damas terriveis: a Saudade e a Solidão. São muito dificeis de aturar e de se conviver com elas. São tremendamente egoistas e não nos deixam em paz; não fogem, não se retiram. Por isso, resta-me um subterfúgio: tentar enganá-las: rio-me delas e tento fugir para dentro de mim; dentro de mim encontro um mar revolto mas tem ondas, tem cheiro a maresia, tem sol, chuva, vento, frio e calor; tem sal, tem vida, pulsa, sente e toca; e nesse mar revolto procuro uma ilha, uma ilha mesmo deserta onde me possa abandonar e nada mais sentir; olho em volta e continuo a ver esse mesmo mar mas a esperança de ver o nevoeiro dissipar, a esperança de ver que algum barco possa no meu cais aportar, a esperança de que sorrir de novo seja possível, esta, a esperança é a terceira dama com que consigo ainda viver.

26/11/2004

necessidade



"...I do not need

to be a part of your sadness;

I just need to be

the reason of your smile."

25/11/2004

veludo



(sem legenda)

determinado (II)

Espalhou a alva espuma sobre a cara húmida; acariciou a face ao fazê-lo, como que num ritual que era obrigado a cumprir. Pegou na lâmina e começou, como de costume, a desfazer a barba a partir do canto inferior esquerdo do pescoço no sentido de baixo para cima. Era uma carícia "azêda" mas que sabia bem. No final, meteu outra vez a cabeça debaixo da água fria e sentiu o gelo refrescar-lhe a ardência facial; pegou no bálsamo e untou a cara e o pescoço; o cheiro não é activo e até é bastante agradável porque para além de refrescar torna a pele macia (naquele momento, claro). Com uma toalha secou o cabelo esfregando-o fortemente e penteou-se de seguida num ritual também demasiadamente frustrante porque sempre igual; desejava ter outro tipo de penteado mas o raio do cabelo não lho permitia. Sorriu novamente e mais uma vez piscou um olho a ele mesmo.
Seguiu para o quarto. Despiu as calças de pijama e vestiu-se a rigor para enfrentar o vento norte frio que soprava lá fora. Eram oito e meia e o sol tinha nascido havia ainda pouco tempo. Meteu o nariz de fora e aspirou a névoa matinal. Fresca, suave e pura. Tentou olhar o sol mas logo retirou o olhar. Meteu-se a caminho. Sentia uma paz estranha. Parecia a primeira vez que fazia aquilo. Ou seria mesmo a primeira vez? Caminhou forte no sentido sul para norte, tal como daquela vez em que se meteu à chuva e a sentiu no corpo refrescando-lhe a alma. Desta vez não sentiu essa necessidade; desta vez a vontade era apenas a de usufruir de uma manhã fria de sol neste inverno que findara e nesta primavera que acabara de começar.
Caminhou apenas com largas e longas passadas até sentir o corpo aquecer e o ar frio começar a encher de calor os seus pulmões.Respirava fundo e compassadamente. Ao fim da longa rua a subir, parou. Encostou-se a um muro e descansou. Olhou para dentro da sua alma e declaradamente entendeu a mensagem: tinha mudado, pura e simplesmente estava mudado. Tivera de caminhar noutro sentido. Iniciara, pois, o novo percurso. Sentiu-se bem.
Sorriu. Sentia-se feliz.

23/11/2004

determinado (I)

Olhou-se ao espelho naquela manhã de vento norte que forte soprava na sua janela; os seus olhos marcados por largas olheiras de uma noite mal dormida não lhe permitiram uma razoável visão; colocou os óculos; mirou-se melhor; a boca estava seca e os lábios pareciam cortados; o cabelo despenteado ainda que curto cortado; o nariz comprido deu-lhe a noção de grandiosidade que não tinha (nem queria, ou será que sim?); retirou os óculos e pousou-os perto.
Abriu a água fria e meteu a cabeça debaixo do jacto; estremeceu e abanou a cabeça como cachorro molhado há pouco; olhou-se de novo; pela cara escorriam as gotas da água com que se fizera acordar daquele sono pesado; olhou profundamente nos seus próprios olhos mas teve de colocar novamente os óculos para se ver melhor.
A imagem que mirava era interessante apenas porque nova; quem via era alguém que já não via há muito tempo; estava ali, à sua frente, alguém que tinha dormido um sono bastante longo; estava ali, à sua frente, alguém que acordara de novo.
Foi preciso uma espécie de baptismo.
Foi preciso nascer de novo, como que surgir do ventre materno e sentir a placenta feita água gelada escorrer-lhe pela face; sorriu; sentiu-se novo, bonito, airoso, sorridente.
Piscou um olho a ele mesmo; sorriu de novo; pegou na espuma de barbear; tinha toda uma nova vida à sua frente.

22/11/2004

azul



...como sempre, e apenas, porque gosto do azul...

distante

...eu tinha qualquer coisa para te dizer, algo que já anda dentro de mim há milhares de anos e nunca tive essa oportunidade...
...há dias, quando surgiste na minha vida, um pouco alheada do próprio mundo, quando ali surgiste espelhada na minha alma, eu estive quase quase para te dizer...
...penso que me faltou a coragem e a voz se me embargou; calei dentro de mim o que deveria ter gritado; talvez tenha esquecido a forma de gritar, talvez só saiba calar... não sei... já não sei...
...mas eu tinha qualquer coisa para te dizer, algo que me possui e me rasga a mente, num acto demente do meu próprio ser de aqui estar sem saber falar, sem saber o que te dizer, sem saber gritar o que tanto tenho calado... milhares de anos de silêncio dentro de mim...
...milhares de anos de solidão da minha própria voz; milhares de anos de espera que surjas ali à esquina, em qualquer lugar, e num momento de paz eu te possa gritar todo o meu amor...
...áhh dor que dói e me corrói a alma de tanto calar esta tão louca forma de te amar... dor de aqui estar e não saber o que te dizer, de não saber traduzir esta minha forma de tão somente te sorrir...
...e sorrio-te a todo o instante, aqui, ali, em qualquer lugar ainda que distante... não me preocupa se me ouves, se escondes as palavras que tão docemente me são devolvidas porque não enviadas; doces palavras de paz, ternura, carinho, amor... em doses de candura mas eivadas de toda a minha dor...
...estão aqui mas sei que tinha qualquer coisa para te dizer; como posso gritar se a voz se me tolda em silêncios ocos e sem eco ou se com eco ecoam apenas dentro do meu vazio, um vazio que não preencho ou se preencho apenas o preencho com a minha própria alma já de si tão gasta por durante todos estes milhares anos não me teres dito: Basta!...

20/11/2004

uma simples carta

A carta que te escrevo aqui e agora é o que "eu" sinto e penso da vida e não "serve" para todos; não há respostas definitivas e únicas para todos nós; vivemos num mundo de desafectos em vez de vivermos num de afectos; vivemos num mundo onde o sentirmo-nos bem com a nossa própria identidade é já tão dificil que usamos estas identidades "falsas" para podermos falar e ouvir. Já nos falta a "coragem" de enfrentarmos os outros, de olharmos os olhos uns dos outros e dizermos a quem estiver na nossa frente o que sentimos, o que pensamos, o que queremos, o que temos, o que podemos ser e, principalmente, o que podemos dar. A vida já vai longa para mim e já vivi muito e quase tudo o que um homem pode viver; passei de tudo um pouco e os anos foram-me tornando "duro" e um pouco "sóbrio" perante as bebedeiras da vida. A vida não é fácil e tudo o que a vida nos dá é pouco porque queremos sempre mais e melhor; passamos a vida a lutar por um lugar ao sol e esquecemos o quanto bom é refrescarmo-nos numa sombra.
Passamos o tempo a querer, passamos o tempo a desejar, passamos o tempo a ter, a possuir, a querer ter ainda mais.
E esquecemo-nos de dar!
E, um dia, ficamos de mãos vazias e ficamos sem nada e lamentamos termos ficado sem tudo o que haviamos tido; que desgraça enorme; perdi tudo; perdi os bens; perdi a namorada; perdi os filhos; perdi a mulher; tanto amor perdido! Tudo o que tinhamos se foi. E passamos a ser uns eternos infelizes!...
Errado!...
Nunca tivemos nada! Porque não somos donos de nada! Nada temos! Nada possuimos! Nada é nosso! Só dando é possivel ser feliz! Desejar tudo de bom para o outro! Querer que a mulher que pensava ter "perdido" esteja feliz agora mesmo sem ser a meu lado! Darmo-nos aos outros de todas as formas, de todas as maneiras. Não pretender ser amados. Amar somente. A felicidade está em amar, tão somente em amar e sentir que amar é estar feliz consigo mesmo.
Amar sem posse nem destino. Amar incondicionalmente.
Não chorar sobretudo porque é preferivel sorrir e mesmo que por dentro a alma se parta aos bocadinhos que nos reste um sorriso nos lábios para dar aos outros. Foi isso que aprendi ao fim de muitos anos. Não fui, não sou nem quero ser dono do que quer que seja. Quero olhar e desejar que todos estejam melhor do que eu. Escolho o melhor para ti. Ao fazer isto faço-o com alegria, com gosto e sou feliz!
É esta a resposta: não há caminhos para a felicidade; esta, é o caminho. Não interessa que caminhos havemos de percorrer, o que interessa é caminhar com a certeza de que "escolher" o melhor para o outro é a base do meu bem estar. Sentir que com essa "escolha" eu estou a caminhar e não à procura do caminho.
Estas palavras não "servem" para todos, eu sei. Mas não sei outras. Tudo o que possas ler nos meus escritos são uma mistura de credulidade e de incredulidade; são uma mistura de fé e de raiva; são uma mistura de sim e de não. Pela simples razão que precisamos dessa "balança" para o nosso equilíbrio. Mas, o cerne da questão está lá, nas entrelinhas e estas são as que acabo de te escrever.
Não sei se era "isto" que querias ouvir, se era esta a "mão" que precisavas; acredita que é a única que tenho e dei-te o que tinha: tempo, palavras e um desejo firme de felicidade...
E, para já, escolho para ti um sorriso.

19/11/2004

primeiro aniversário

..........faz hoje um ano que, no Sapo, muito timidamente, nascia o "Lobices"... por entre voos palermas dos "meus" pardais, por entre palavras da minha alma e por entre olhares sobre os meus pontos cardeais... por entre risos, sorrisos e lágrimas, por entre gargalhadas e gritos, por entre lembranças e desejos, ele se foi gerando a si mesmo... aqui o tendes, cheio de nadas e vazio de tudos... obrigado a todos vós e o meu eterno amor...

18/11/2004

sonho

Vá, tirem-me tudo…Eu me desnudo num gesto simples e urgente; tu e toda a gente: Tirem-me tudo, tirem-me o corpo, a alma, o sorriso e a calma; tirem-me o juízo, a paz, a rectidão…Tirem-me o siso, o beijo e o riso; tirem-me o sol e a lua… Façam um longo rol; tirem-me tudo. Eu me desnudo. Tirem-me a pele, a voz, o coração. Tirem-me as mágoas e as roupas e a saudade; tirem-me o peito e o respeito e a verdade; tirem-me o ontem, o hoje e o amanhã: tirem-me tudo mesmo que seja já... Eu me desnudo: façam uma lista e de nada se esqueçam; façam revista; tirem-me tudo à chegada ou à partida. Tirem-me tudo, eu me desnudo e à vossa disposição me ponho...mas, por favor, não me tirem o sonho...

17/11/2004

imagens

“…encosto a cabeça no vidro semiaberto e fecho os olhos por segundos; pela frincha sai o fumo do cigarro ao mesmo tempo que as gotas da chuva varrida pelo vento tenta entrar com força. Não há lágrimas que se comparem às que batem no tejadilho do carro; o vento sopra forte de sul e as ondas alterosas mostram-me um mar agitado porque de si próprio aquelas lágrimas haviam saído uns dias antes. Percorro a visão até ao horizonte cinzento-escuro e vejo um relâmpago descer sobre as águas. Imagem bela e soberba. O céu zangado como me ensinaram em criança. O interessante era terem mais medo do trovão do que do relâmpago. Havia uma cantilena que rezavam fechadas no quarto; algo que no meio das palavras semi comidas pela reza eu percebia algo como santa bárbara; mais tarde vim a saber que Santa Bárbara tem a ver com as trovoadas, dizem. Imagens da infância que recordo com saudade. Um corpo deitado no chão da sala, uma chupeta e um açucareiro ao lado; e lá ia eu molhando a chupeta no açúcar e chupando; ainda hoje gosto de comer açúcar. Um corpo escondido no meio do centeio que não se dobrava pelo vento; um corte num pé provocado por um vidro escondido. Umas mãos pequenas pegando nas pombas que existiam no pombal do pai. Uma gaveta com postais antigos do Brasil que meu avô trouxera. Um retrato enorme dele e de minha avó no dia em que casaram, pintado a carvão. Era imponente. Um fogão de lenha crepitando. A chuva que entrava pelo vidro começou a molhar-me a face e a cabeça e o cigarro já me estava a saber mal. Liguei o motor, fiz marcha-atrás e arranquei dali para fora. Para lá do mar ficava o sonho, o sonho que sempre tive de o enfrentar, o sonho que sempre tive de me meter dentro dele e o amansar. Nunca conseguido. Os faróis foram ligados porque a penumbra já era demasiadamente escura para ser dia. A noite que se aproximava iria brindar-me com mais recordações; é isso que faço para adormecer todas as noites; relembro imagens distantes e tento reconstruir a vida que já não existirá nunca mais. Puzzles de imagens, de sons e de choros e de risos, de quedas, de corridas, de corpos cheios de calor abraçando-nos. Porque me faz tanta falta esse abraço de outrora? A estrada à minha frente ainda era longa e a noite me esperava…”

roca



...onde o vento sopra gotículas salgadas de um mar revolto de amor...

16/11/2004

identidade

Vagueio o meu corpo por entre o cimento da cidade; não lhe encontro identidade; não sei onde estou. Apenas vou. Saí há pouco de mais um Bar. Que bebi desta vez? Não sei mas também não interessa. O telemóvel continua mudo e nem uma mensagem tem e eu não tenho tempo para escrever; só tenho tempo para esquecer e também penso que já não sei o que dizer. Procuro as palavras mas parece que as perdi. Perdi as palavras; ando atrás delas; perderam-se no sótão da minha memória e a chave do baú há muito que já lá não mora. Busco incessantemente as letras para compor palavras mas não as encontro e desisto; mas, desisto de quê? Não sei. Desisto. Também se vive para desistir; não vivemos somente para insistir. Mas as letras e as palavras são fugidias, escorregadias, lembram momentos que já não encontro; são perdas deixadas (ou deitadas?) ao vento, lamento.
Cruzo-me com as pessoas e sinto-lhes o odor; interessante, mesmo com um pouco mais de álcool, eu consigo sentir o cheiro: sinto os perfumes, a transpiração, um cheiro a urina naquela esquina, o cheiro a fritos que vem daquele restaurante rasca; um pequeno aroma a rosas naquele varandim misturado com o perfume do tabaco. Ouço também os ruídos: os carros, as motorizadas, as conversas mudas, as tosses, o grito, o berro, a sirene do carro da polícia, a mulher que chama um cliente ali à frente.
Mas somente vejo os meus pés caminhando no piso molhado da última chuva que caiu. O sol fugiu cedo, deitou-se ainda ia o dia a meio; deixou-me só. Já não sei onde deixei o carro. Mas, para que o procuro se sei de antemão que ainda vou parar num reles lugar para beber mais um gole? Sinto-me mole. Sem forças e empurro as pernas para que o corpo não fique parado. Está frio neste lado de mim. Não sei como está o tempo desse lado, excepto que de vez em quando algumas gotas de chuva me vão molhando. Vagueio o meu corpo por entre o cimento da cidade e continuo a não lhe encontrar a sua identidade.
Onde estou? Que faço aqui? Para onde vou?

verticalidade



...sem legenda...

15/11/2004

frio

Tenho frio, tenho mesmo muito frio.
Sinto um arrepio dentro de mim que me faz encolher a alma; dobro-me sobre mim mesmo e procuro a razão do frio que sinto; sinto-me cheio de um vazio que se instala no meu cérebro e deste passa para o meu ser. Sinto-me entorpecer e as pernas dobram-se e enregelam. O frio que sinto faz-me tremer; não vejo sol dentro de mim e a lua passou já muito ao largo e não deixou rastos. As estrelas estão longe e não me iluminam o suficiente para aquecer o meu coração. É tudo em vão. Todo o esforço que faço para me manter à superfície ainda me magoa mais porque as forças me abandonam e o corpo rejeita energias que gasto nesta viagem. E é apenas a minha imagem. Mas olho para lá e não vejo nada que me faça regressar. E desejo cada vez mais sair, fugir mesmo sem saber para onde ir; não é dilema não saber o que aí vem; sabe-se que se está a ir nessa direcção e deixamo-nos ir como folha perdida nas águas turbulentas de uma sarjeta suja de pó e vazia também de tudo. Deito-me dentro de mim e adormeço no meu sonho sem dormir; é um sonho acordado de tão cansado que nem o sono sossega e não me dá trégua.
Tenho frio, tenho muito frio.
Sinto um arrepio de novo e mais uma vez me encolho e olho para dentro do copo que tenho na mão; é um copo vazio como eu e também está frio; peço a alguém que o encha de novo e dizem-me que não, que já bebi demasiado; mas eu sei que não, ainda consigo entender o que me é dito e porque razão ouço este imenso grito.
Tenho frio, tenho muito frio.
Saio num tropeço dum trôpego andar. Passo pelo espelho e alguém do lado de lá olha para mim e sorri; é alguém que eu já conheci, alguém que já esteve aqui comigo, dentro de mim; nunca mais o vi; por onde andará? No entanto, foi simpático, acompanhou-me até à saída; não o vi mais; não havia mais espelhos naquela sala daquele bar. Abri a porta de par em par. Respirei o ar frio da noite ainda mais quente do que o frio que eu sentia dentro de mim. Olhei o mar que se estendia para lá daquelas escadas que desciam para ele, ele que me esperava depois do abismo; olhei-o e ele riu-se numa risada tremenda que me fez encolher e de novo ver que já nada estava ali a fazer. Preciso de dormir, mas um sono que jamais termine; preciso de dormir e afinal o carro está ainda ali; é aquele preto; tem aros prateados nos faróis mas não tem luz, estão apagados como eu. A chave está na minha mão e abrir a porta não custa; já nada me assusta porque o frio me tira a percepção da realidade; tenho apenas uma vontade, dormir, deixar-me ir e não saber nem como nem para onde.
Tenho frio, tenho muito frio.


13/11/2004

decidir

Há sempre algo que nos impede de fazermos o que achamos que não devemos fazer; como que, dentro de nós, houvesse uma espécie de censura que velasse pelas nossas acções. O que podemos e o que não podemos fazer é algo que, primeiro, vai à loja da censura e só depois segue para fabrico. A forma final do produto é que poderá ser diversa daquela que foi projectada. Onde nos leva tal atitude? Que castração nos provoca semelhante sujeição? Porque não fazemos apenas o que nos apetece fazer? O que é isso de consciência? Uma espécie de balança com uma série de pratos onde são pesados todos os prós e os contras daquela acção planeada. Porém, porque razão agimos de imediato, sem pensar, em momentos de crise duma forma a que chamamos de instinto? Ou será que mesmo antes de agir instintivamente, a loja da censura funciona mesmo sem darmos por isso? Será que há, na mesma, um pesar na balança? Saltamos de imediato para o lado para evitarmos ser atropelados por uma carro mesmo sem vermos que podemos cair na valeta cheia de água suja da sarjeta; fugimos rápidos, em caso de incêndio por exemplo, da varanda para a rua sem olharmos à altura que nos separa dela e sem pensarmos que podemos partir uma perna. Porém, no dia a dia das nossas acções habituais de vida em que o instinto não é preciso, as nossas atitudes são “pesadas” antes de as tomarmos, como se de uma poção mágica se tratasse e fosse preciso tomar a medida exacta. Então, hesitamos antes de agir e somente depois actuamos. As nossas escolhas devidamente pensadas tanto podem dar para o certo como para o torto; não há maneira de sabermos se aquela decisão, ainda que devidamente gerida e equacionada, vai resultar em pleno. Mais tarde é que saberemos o resultado. Na verdade e a experiência mostra-nos isso, quando usamos o instinto, verificamos o resultado da acção então utilizada, de imediato, quer seja bom ou mau; também, de imediato, ficamos felizes ou infelizes com a opção tomada. Já quando apenas a tomamos depois de devidamente ponderada a questão, somente muito depois veremos o resultado; e até podemos viver angustiados aguardando o desfecho; será que fiz bem, será que fiz mal? E agora? Bem, só tenho que aguardar e esta espera, esta expectativa provoca angústia, provoca danos, provoca dor. Que faço? Escrevo um texto sobre que tema? Bem, vamos lá ver. Penso, repenso e nunca mais me surge a inspiração para desenhar algumas letras sobre um tema que nunca mais se faz luz em mim. Então, de imediato, começo a teclar instintivamente; saiu o que acabaram de ler; ao mesmo tempo que escrevia ia vendo o resultado de imediato daquilo que surgia no monitor. Não houve angústia; não houve dor. Utilizem o instinto o mais que puderem. Vão ver que, geralmente, dá certo. Também o pior que poderá acontecer é terem de perder tempo a ponderar a questão. Mas será que ponderar é assim tão mau? Não sei, a decisão é sempre individual. Façam o que vos aprouver; façam o que vos der na real gana. Sejam felizes nem que para isso seja preciso chorar um pouco. É que, às vezes, umas lágrimas clarificam a situação e o panorama, após o choro, é um pouco mais claro!...

11/11/2004

momento divino

Desde sempre me interroguei sobre o porquê do orgasmo ser algo que não tem similitude com qualquer outra sensação do corpo humano; ou seja, os sentidos proporcionam-nos sensações definidas e concretas que sabemos entender e para além de as poder referenciar, podemos também encontrar algumas parecenças entre umas e outras; estou a lembrar, por exemplo, o “prazer” de aliviar a bexiga, o “prazer” de espirrar, o “prazer” de inspirar a maresia, o “prazer” de saborear um bom gelado, etc. Nesses prazeres, podemos encontrar algumas parecenças entre uns e outros mas todos eles definidos, circunscritos e absolutamente “normais”. O prazer no momento do orgasmo é algo que transcende todos os outros prazeres; é o prazer supremo; o cume dos sentidos; o topo de gama!... Em toda esta minha vida ainda não encontrei nada melhor, nada que proporcionasse ao meu corpo (e penso que ao meu espírito) a escalada ao pico dos prazeres sensoriais. É algo que não tem explicação. Podem vir com teses neurológicas, fisiológicas e outras que tais mas a verdade final será sempre a mesma: maior e melhor prazer que um orgasmo, não existe!... Daí que, me tenha interrogado ao longo da vida sobre o porquê de tal sublimação! Ou seja, porque razão é aquele e não outro o prazer maior. Há filosofias que defendem a ideia de que o sexo é a sublimação por excelência na medida em que significa a união que cria vida. Repensei e admiti que o orgasmo também pode ser obtido por estimulação solitária, a vulgar masturbação. Porém, aprendi ao longo da vida que há diferença no prazer que se obtém no orgasmo provindo dum acto solitário e o que se obtém na junção de dois corpos no acto da mais pura cópula, entenda-se vaginal. Assim, fui procurando tentar entender porque razão a “natureza” premeia com um prazer sublime todo e qualquer acto sexual na junção de um pénis com uma vagina. Desde a necessidade de procriar para a continuidade da espécie, até à frase batida de que até os animaizinhos gostam, a verdade é que de todos os actos humanos, aquele é o topo de gama! Só há uma razão: aquele momento é o momento divino, é o momento em que Deus está em nós e se sublima, sublimando-nos!... É o momento em que Ele vive, em que Ele vibra… É o momento em que Ele diz que existe, que está, que é… é o momento em que Ele nos penetra em totalidade e num único e breve instante Ele se reduz à insignificância do Homem e se transcende na divina certeza de que aquele é tão-somente e apenas o momento da fusão da carne e do espírito… o fugaz momento em que o Homem se torna Deus!...

09/11/2004

...Ensaio sobre a solidão

......Depressa me canso de mim.

Olho à minha volta e só vejo recordações. Uma terna claridade (ou será obscuridade?) invade o meu quarto e me rodeia de mansinho. Já reparei várias vezes: vem sempre acompanhada do silêncio! Nunca soube o porquê de tal evento. É uma luz difusa, lenta, como que surgindo a medo e com ela, um opaco silêncio; algo que nada traz a não ser paz. Mas trazê-la já é bom. E é nesses momentos que me sinto só. E sabem porquê? Porque não tenho com quem partilhar esse momento! Algo que sempre desejei fazer um dia na minha vida: partilhar a minha solidão. Dizer a alguém: “Vês? Estás a ouvir? A minha solidão está aqui, é isto que vive aqui comigo. Entendes?” Mas nunca consegui e nunca o consegui porque nos momentos em que a solidão me visita eu nunca estou acompanhado; engano, estar acompanhado estou mas apenas de mim mesmo e dessa luz e desse silêncio. Já somos três. Estendo-me então no leito dessa luz (ou será escuridão?) e deixo-me levar pelo barulho do silêncio que me invade. Nunca é tarde para experimentar novas sensações, só que esta é já demasiadamente minha conhecida e então apenas nos olhamos e nos aceitamos mutuamente. Nada mais fazemos senão partilhar aquele momento, uma partilha a três numa solidão solitária de um só. Estendido nela e com o silêncio deitado a meu lado, olhamos o tecto que lentamente se separa de nós em tons de cinzentos cada vez mais escuros; passo os braços pelo silêncio e aperto-o de encontro ao meu peito. Sinto o seu respirar lento e compassado; é um som simpático, eu sei, mas ao mesmo tempo ousado na medida em que invade o som do bater do meu coração; e o silêncio deixa de ser silêncio para ser um baque surdo ritmado aqui, ao meu lado, deitado. No entanto, continuo abraçado a ele e ele sente-se bem porque acarinhado. É um abraço puro mas forte; ingénuo mas apaixonado. É apenas um abraço de silêncio compartilhado num leito de claridade a escurecer em lentos tons que tem o anoitecer. Porém, já quando o tecto se separa de nós e nos abandona entregues que ficámos à luz das trevas que entretanto nos envolveram, o silêncio se aperta contra mim e me possui. Penetra-me fundo e a respiração torna-se ofegante, sufocante.

O que até então era um prazer compartilhado passa a ser dor e algo que corrompe. Penetra-me cada vez mais fundo e a dor aumenta. O bater e o som do meu coração ultrapassa o silêncio que entretanto se esvai num orgasmo de sons delirantes de espasmos gigantes que se avolumam dentro de mim. O tecto já não existe, a obscuridade ainda persiste com mais intensidade. É um estar sem vida, sem morte e sem idade. Apenas habita em mim numa eterna cumplicidade. Respiro o espaço que me rodeia. E a escuridão cai sobre tudo e me envolve como uma teia. Já tenho mais uma companhia. O doce sono vem de mansinho amparar meu corpo e cobre-o com carinho. Adormeço lento, extenuado de tanta amargura, numa vã procura do próximo amanhecer que de novo me vai trazer o fim de tarde, neste terno ciclo de amor e ódio em que espero pela eternidade.

08/11/2004

desejo

...te vejo ali, parada, me olhando só... não há palavras, nem medos, nem lágrimas... há apenas um olhar profundo e um toque suave como se fosse o toque mais importante deste mundo... te olho e te fixo a alma... te possuo mesmo antes de te tocar, de te amar, até mesmo antes de te olhar... é tudo muito mais forte do que o meu querer... olhar-te bem dentro mesmo sem te ver... sentir-te só de te desejar, ali, parada numa pose linda, somente a me olhar... fixo tua boca e te sorvo completa... te abraço sem te abraçar... te afago sem afagar... te penetro sem te penetrar... está tudo ali, em ti, a meu lado... basta te desejar... e teus olhos já me possuiram... e teus olhos já me abraçaram... e teus olhos já me sentiram... ali, sem questionar, te estendo a mão... vejo teu corpo a arfar.... e sentes minhas garras te tocar... e teu corpo em minha alma se entregar... tudo tão simples: apenas o desejo de te desejar...

06/11/2004

morrer

«Um até já, meu amor, que por amor se corre e por amor se não percorre; um até já, meu amor, pelas correrias que correste e pelas paragens à minha espera; um até já, meu amor, pelo amor caminhado, pelo amor parado como os dias que correm á nossa frente e nos arrastam irremediavelmente para essa morte; a morte do amor que de amor morreu no dia em que em vez de um até já, me disseste adeus.»

04/11/2004

procura

Não penses que sabes tudo ou que sabes que podes tudo saber; nada se consegue saber apenas com a aprendizagem; é preciso buscar, é preciso viver, é preciso sentir, ser e estar; nada se consegue saber apenas com o olhar; é preciso ouvir, tocar, cheirar…

Usa todos os meios ao teu alcance para que um lampejo de sabedoria surja perante ti, mesmo os meios que não possuis, ou seja, usando a sabedoria dos outros, daqueles que têm algo para te dizer, para te contar, para te oferecer.

Depois, lança esse conhecimento no teu ser; cozinha-o com todos os ingredientes que possas arranjar, tenta um lume brando e usa teu instinto.

O produto final será teu e de mais ninguém; foste tu que o obtiveste com o teu trabalho, com a tua busca, com o teu empenho e não só com o que te deram.

Depois, prova esse produto e digere-o com prudência e com lentidão.

Porém, sempre que possas, usa um pouco de loucura, dá-lhe um toque final, impõe-lhe a tua marca e oferece-o a quem o procura.

Não o retenhas pois de nada te serve guardado no sótão da tua memória.

Areja-o e reparte-o com os outros.

A seguir, procura novo saber.

E repete o processo.

03/11/2004

beleza



...onde o belo se inscreve no inacessível infinito da vida estelar...





(photo from Astro.com)



02/11/2004

parto

Hoje demente, fui com a mente cheia

Para a maternidade das palavras.

Dei entrada num quarto vazio de ideias;

Não vi parteiras nem obstetras,

Nem marquesas nem banco de letras;

Somente paredes brancas caiadas há já muito tempo

Limpas de memórias e de histórias.

Deitei-me e acomodei-me o melhor que pude

Na espera expectante do passar das horas;

Posicionei a mente cheia aguardando

O tempo necessário para dali me vir embora

Com algo que tivesse de mim nascido cá para fora.

Peguei nos fórceps e nos bisturis

E cortei a mente em pedaços;

Forcei a palavra a sair

Mas não dei por nada

Nem que de letras estava a parir;

Apenas esperei que o tempo passasse

Ora lento ora fugidio

De ideias ou demências

Parcas em odes, prosa ou poesia…

Mas apenas saiu a desgraça

Desta imensa sensaboria…

01/11/2004

novembro



...e o sol brilha aqui, mesmo sobre mim, esplendoroso, num esconde esconde onde se adivinha mais alguma luz e mais calor para nos brindar neste início de Novembro...

31/10/2004

bendigo o silêncio

Bendigo o silêncio que me envolve; há tão-somente o chilrear dos pardais que no meu quintal fazem os tais voos palermas; são imensos e, neste momento, com o vento norte que sopra um pouco forte, esse piar dilui-se porque o som vai para sul deste meu canto. Me encanto, sem espanto, neste doce manto de paz e de solidão. Não estou triste nem a mágoa me consome apesar de tal estado ser enorme. Me entrego a ela em paz e com muita serenidade; não faço alarde nem a tento afastar. Aguardo apenas; aguardo o que houver para aguardar; não vou apressar o passo para passar em frente o que tenha de vir ainda a passar; não sei o que está para vir mas sei que algo virá. Bendigo, pois, o silêncio que me envolve. Sinto-me nele como dele fosse parte e não existisse sem que ele me deixasse; penso mesmo que, presentemente, eu deixaria de ser o que sou se o silêncio me abandonasse; no entanto, grito e desejo que tal aconteça, grito e anseio que ele desapareça, que algo surja para eu rir às gargalhadas. Porém, me assalta uma dúvida: que outra paz e serenidade poderei ter se este silêncio me abandonar? Será que a luta e o movimento será uma outra paz? Será que quando o actual silêncio me abandonar eu irei ter novamente um outro silêncio? Há muito já que ele faz parte de mim, ou se calhar não tanto tempo assim; todavia, a contagem até nem é importante, nós é que damos a importância que se sente deva ser dada, ou talvez não, talvez nem mereça ser assim tão doce ou mesmo breve; é que não sei se o estado de alma que sinto é doce e longo se amargo e curto, se amargo e longo ou doce e curto; sei apenas que me sinto bem e ao mesmo tempo sei que não o posso aguentar muito mais tempo. Tragédia esta a minha que de tão simples a faço tão complicada. Mas não seremos nós os complicadores que de tanto complicarmos as coisas, estas se tornam mesmo complicadas? Se calhar assim é. Resta-me, por isso, a esperança de que seja eu que esteja a laborar num erro e não que seja o erro um erro em si mesmo. O nevoeiro que nos cobria há 48 horas dissipou-se; o sol está novamente brilhando; pode ser que seja um bom augúrio, ou talvez apenas uma mudança de vento; que seja o que tiver de ser; nada mais simples que aceitar o que nos for dado vivenciar. Bendigo, portanto, o silêncio que me envolve. No entanto, espero apenas (nem que seja um grito) que algo me acorde.

29/10/2004

ouvindo a noite

...sentado nesta cadeira de frente para o meu computador, numa mesa de madeira, branca de sua cor, eu teclo nas letras paradas ao redor dos meus dedos...preparo um texto, sem contexto, com uma textura qualquer, talvez de amargura...não me preocupa a forma, nem as palavras que me vão deslizar pelos dedos e destes para o écran que, de vez em quando, olho prevenindo um possível erro de escrita...não me preocupa o tema, mesmo que sem lema não se torna um dilema neste plural sistema de escrever prosa ou poema...

...trata-se de fazer deslizar apenas o teclado pelos meus dedos e deixar sair as palavras da minha mente numa constante busca da semente do significado para aquilo que estou a fazer neste momento...e que faço eu, nesta hora, aqui, sozinho e agora, batendo lento ou apressado nas teclas do meu teclado...olho em frente e vejo um relógio que marca as horas lentas que passam por mim e que marcam o tempo de viver a sorrir e a amar...

...tudo e todos, sem olhar a quem...somente por amar...

...e que espero eu obter desse amargor doce da alma que sofrendo não chora, pelo contrário, vive e implora...e que espero eu senão encontrar o caminho mais leve que me percorra o corpo como quente neve branca como o luar que lá fora, no céu cinzento, teima em espreitar numa noite fria de chuva que se aproxima do meu solitário estar...

...não percorro os corredores do dia que passou nem choro as lágrimas que retive dos acontecimentos que por mim passaram como uma brisa leve pousando no lugar onde estou e me sinto pairar dentro do meu próprio eu...

...procuro o sentido da vida que não encontro, numa procura constante de mim mesmo, na luta insana da loucura que afasto de mim nem que seja por um instante...

...e esse instante está chegando na forma da noite que se aproxima, daquele estado de espírito que me anima, pois a solidão resta a meu lado sem um mudo som ou qualquer grito abafado...

...e aqui fico, esperando a noite chegar para nela me agachar e aninhar...povoar nela os meus sonhos de aqui me sentir e de aqui gostar de estar, neste lado do meu mundo, sozinho, de dia ou de noite, a mim próprio mentindo...

...mentindo-me em constante delírio duma busca que ufana luta me provoca na mente que, pensando, não me escuta...

...e não me oiço a pensar, nem quero sequer isso imaginar; oiço apenas a noite chegar e a sua escuridão me abraçar, sem me possuir nem me ter, apenas me rodeando de um leve prazer por ouvir os seus sons sobre mim verter...

...e vertem-se esses sons em pancadas surdas de palavras mudas, livres e desnudas de sentido ou de intenção...

...a noite traz paz ao meu coração...ouvindo-a, fico sossegado e dou a mim próprio a minha própria mão...segurando-me para não a possuir...para ficar aqui e não ir...

...senti-la apenas num, pequeno que seja, luxuriante som...

...Ouvindo a noite, parto para o êxtase do meu ser, não pretendendo ver, apenas ouvi-la...

...dentro de mim, a bater...

27/10/2004

amar como o vento

"Em cada relação que começa, a vida e o amor renascem. A paixão coloca cada pessoa num ponto alto e excepcional, inevitável e imperdível. Gostosamente. Mas as pessoas no seu melhor vêm depois, às vezes muito depois, quando se chora e luta, quando se aceita e se resiste, quando se constrói e quando se acredita. As verdadeiras relações, os grandes amores são sempre virtuais. Não por serem irreais, antes por serem imateriais, apesar de nos darem a ilusão de um corpo, de um suporte material que tocamos e possuímos, que acreditamos nosso, real, físico, material. Sentimos amor, quase conseguimos tocar, agarrar essa sensação. Dizemos convictos que é real. Olhamos o outro nos olhos e parece real, parece que o outro ali está e nos ama mais que nós... Mas ver, sentir, tocar, são formas de aceder ao amor, ascensores, facilitadores. Difícil mesmo é planar. As relações são feitas de ar, planar. É no vento que se ama. Talvez ser o próprio vento, e não a folha. Vê-se melhor o que é amar quando é difícil amar, aceitar que é sempre mais do que improvavelmente, um esforço, um desejo, um empenho pessoal em algo que materialmente não existe, não é palpável nem mesmo se sente. Nunca se ama realmente, a realidade do amor é nunca ser real. Virtual. No dia a dia, corpo a corpo, sonha-se o amor, sonha-se um amor virtual, que se não for virtual não é amor. Virtual porque não depende da presença do outro, da aparência do outro, do comportamento do outro. Um amar que perdura e se sustenta (Vento) mesmo quando não vemos o outro. Amar é memória, antecipação e crença profunda em memórias que hão-de vir. Virar a cara a quem nos vira a cara, sabemos todos que é real, bem concrecto, mas não é amar. Ama-se mesmo quem não nos ama e nos quer deixar. É na paciência, na persistência que se mede o amor. Amar é escolher amar. Depende de quem ama e não de quem é amado. Depende do esforço e disponibilidade de quem ama. Ninguém merece ser amado, porque ninguém pode deixar de merecer ser amado. Não depende do mérito, não depende do comportamento, não se vê nem se comprova. Posso ter que silenciar, posso ter de partir... vai comigo o amor."
(from: autoria devidamente identificada)

25/10/2004

questão de oportunidade

...às vezes é uma questão de oportunidade...ou se está lá no momento exacto ou não...

...às vezes é uma questão de amar ou não amar...é só saber se se ama ou não...

...como descobrir se amamos alguém? É simples. É estar. É ser. É sentir. É viver. É dar. É usufruir. É fluir. É pensar. É querer!...

...é, sobretudo, dar...quando sentimos que estamos a dar a nossa atenção a outrém, quando sentimos que estamos a dar o nosso melhor em favor de alguém, quando sentimos que o importante não somos nós mas aquele que ali está e que precisa de nós...aí, sabe-se que se está a amar alguém...

...e, às vezes, é uma questão de oportunidade.

Muitas vezes nunca passa por nós a pessoa certa e nunca nos damos ao "trabalho" de saber se não seria aquela pessoa a pessoa certa...e ela se vai...e nunca mais a veremos...é uma questão de oportunidade...sentir no momento exacto que alguém precisa de nós e nesse exacto momento nos darmos e então aí saberemos que estamos a amar...

...não é difícil...talvez, na realidade, seja uma questão de oportunidade...

...olhai bem em volta, à frente e atrás...pode ser que alguém precise de vós...e se esse alguém lá estiver...não percam essa oportunidade de amar...nesse momento sereis felizes...

23/10/2004

Uivo sobre o glaciar

Levantou-se com um sobressalto, daqueles que nos erguem a coluna com uma inspiração sôfrega de desespero na garganta. A escuridão estava toda tingida de azul. Uma estranha luminosidade azul que vinha do lado de fora da janela. Espreitou por trás do veludo já velho e viu o vidro da janela quebrado, estilhaçado no canto inferior esquerdo. Tocou-lhe e automaticamente levou o dedo à boca, sugando o sangue do corte que acabara de sofrer. Um breve gemido de dor, frustrado de fúria. A lua tinha desaparecido, tinha deixado um buraco no céu. Sentiu um arrepio como uma corrente de ferro a mover-se no interior da espinha. Julgou ouvir ruídos, um estalar de madeira, ecos de passos atrás de si, o som das sombras... Voltou-se e tremeu. Não olhou sequer para si própria. O chão estava alagado, os pés descalços enregelavam-na. Ouvia uma torneira aberta, pingava lentamente, com o peso da tortura. Segurou a cabeça com as mãos, crispando os dedos entre os cabelos, tapando os ouvidos quase até ao limiar da dor. Correu para a floresta a sul da sua janela, engolida pelo redondo do uivo que suspirava por todo o lado à sua volta. Não se vestiu. Tudo continuava assustadoramente azul, os seus olhos ferviam e faiscavam, fazendo perguntas às estrelas ausentes. Correu num ritmo deslumbrante, na sua deslumbrante figura pálida. Se a víssemos em pausa, acharíamos a mais bela fotografia do mundo... Correu atrás do Lobo. Sonhara com ele durante 10 noites seguidas, um segundo mais cada noite, até que o sonho a puxou para dentro e ela foi ao seu encontro. Correu atrás do Lobo, dominada pela loucura. Gritava o nome do seu amor, como se chamasse por ele. Gritava, gritava, gritava... O Lobo deixou de estar à sua frente, e surgiu-lhe pelas costas, quando vergou os joelhos e caiu no chão húmido. Tinha chovido nas horas anteriores, muito certamente. Arranhou a terra com as unhas como punhais. Sentiu um frio muito fino percorrer-lhe a parte de trás do pescoço, desde a nuca, descendo até à cintura. Depois um calor imenso a escorrer-lhe pelos braços. Tinha o Lobo por cima do seu corpo, num qualquer movimento extasiante, sentia-o roubar-lhe a vida ao mesmo tempo que a alimentava de eternidade. A escuridão torna-se tão intensa que explode em luminosidade. A noite quebra-se em mil fragmentos. Tudo inundado de azul, o olhar dela num fervilhar insustentável de paixão. Está um homem ao seu lado. Está frio. O branco tinge-se de vermelho. O chão absorve-lhe o sangue frio. Desce da pele glaciar tão suavemente como a mão ávida desliza sobre o gelo... O olhar ficou preso no infinito. Um gesto último de desespero suspenso na mão. E a boca entreaberta, no último suspiro com o nome do seu amor.
(oferta)

21/10/2004

Cristiana

...Cristiana veio a seguir ao Nuno (meu primogénito)

....faz hoje 33 anos que me deu a alegria de ser pai pela segunda vez

....longa caminhada esta que nos levou por estradas tão diversas

....sendas percorridas com risos e lágrimas

....metas que não estão escolhidas mas que serão atingidas

....com esperança no peito e um sorriso na alma

....parabéns filhota!...

...um beijo muito grande


19/10/2004

caminhando

...um dia, que possa ser bem distante deste, olharei para mim e reconhecer-me-ei; hoje, ainda não sei quem sou... deambulo como se o fizesse mecanicamente... um dia, que possa ser bem distante deste, postarei aqui um texto sem emendas, sem rasuras e sem entrelinhas; direi, nessa altura quem sou, pois só nesse momento saberei para o que vim... não vou pedir alvíssaras por me ter encontrado nem me vou premiar por ter lá chegado... olharei apenas para mim; servirá um simples espelho.
Nele verei estampado um rosto que não é o que tenho agora mas o que verei ali retratato; depende dos olhos que olharem e da alma que me verá... não sei se me saberei ler bem fundo nos meus próprios olhos... mas vou levar uma cábula e talvez me ajude a entender-me um pouco melhor... hoje, ainda não me conheço mas nem por isso esmoreço... caminho ainda na demanda, sabeis que sim porque todos sabem quem sou; eu não, porque não sou eu que aqui estou... ainda vou a caminho de lá, a caminho de saber o que vim aqui fazer... tarefa dificil esta... no entanto, sorrio antecipadamente porque nesse dia, finalmente, me vou poder ler... nessa altura, saberei o porquê de tudo...

18/10/2004

reunião



...de ancestralidades... a meta final... o caminho a seguir...







(photo in: vozdovento.blogger.com.br)

17/10/2004

parar

...todos querem descansar..."só quero descansar"... olhar para dentro e visionar a alma... olhar para o que nos cerca e disfrutar a calma... sentir o odor do silêncio e ouvir o cheiro do vento... tactear o nada à nossa volta e provar o sabor da solidão... sorrir ao tudo que não vemos e gritar ao nada que temos... são apenas palavras ou frases gastas na tentativa de compor um laço perfeito de sons num riso de cores esbatidas na tela da vida... só isso e um sorriso...

15/10/2004

tempo

...num certo dia em que não tinha tempo, esperei algum tempo para ver se arranjava tempo para ver porque razão é que não tinha tempo para ter tempo para pensar no tempo

...então dei por mim a ter tempo para pensar no tempo de ter tempo para mim

...foi quando vi que o tempo era uma coisa sem tempo para me dar o tempo que não tinha...

...decidi que não existe o tempo...

...apenas existo num tempo sem tempo para ter tempo de pensar no tempo

...por isso não penso no tempo pela simples razão de que não existe tempo para eu pensar em ter tempo para pensar no tempo...

14/10/2004

guilherme

...e porque hoje o meu neto mais novo faz 3 anitos, aqui fica um beijo muito grande deste avô babado...

13/10/2004