31/03/2005

simples

"...é simples e ao mesmo tempo complicado estar deste lado; olhamos para o outro lado e não o entendemos... porque deste lado somos matéria e do outro lado somos espírito, consciência... não somos ainda capazes de nos convencermos que a nossa verdadeira identidade é eterna, a nossa verdadeira essência é etérea e não material... vivenciamos apenas aqui e agora, neste espaço-tempo que nos foi concedido, o estado bruto da materialidade e habituamo-nos desde pequeninos a sermos "donos"; queremos possuir; queremos ter; agarramo-nos ao corpo e a morte passa a ser tabú; a matéria pesa porque física e não damos, por isso, conta do espírito... é simples e ao mesmo tempo complicado estar deste lado; olhamos para o outro lado e não o entendemos... e, no entanto, é tão simples: basta aceitar que a morte é apenas um renascer!..."

29/03/2005

lavar

...Senti-me também muito só e a sesta não foi pacífica; a habitual taquicardia não me deixou descansar; saí do sofá; olhei o tempo; ventava e chovia em força; preciso de lavar a minha alma, pensei!... Vesti umas roupas grandes e umas calças grossas; peguei no pequeno guarda-chuva e enfrentei-a vinda de sul; rumei, em passos fortes e grandes bem como apressados, para norte com a chuva batendo-me nas costas e o vento me empurrando; caminhei assim uns 15 minutos e parei abrigando-me e descansando o peito que arfava; o descanso foi o suficiente para virar rumo ao sul e enfrentar de frente a chuva e o vento forte; o guarda-chuva pouco adiantava; rumei de novo em passo mais lento mas na mesma apressado; a chuva me batendo de frente e o vento me sabendo bem; percorri o mesmo caminho em sentido contrário e penso que 20 minutos chegaram; aqui cheguei; despi-me e senti-me lavado; com uma toalha grossa me limpei e nova roupa vesti; sentei-me agora aqui de alma lavada e sentindo um saboroso calor me percorrer o corpo; há dias cinzentos que sabem bem. É só saber dar-lhes a volta!

27/03/2005

ressurreição

...no seu blog, o Prof. Júlio Machado Vaz, colocou hoje um post do qual destaco em itálico a sua parte final, com a qual estou inteiramente de acordo:
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"...Não quero simplesmente estar vivo, mas ter uma vida. Aceito, com gratidão!, todas as máquinas e artifícios terapêuticos que me ajudem a gozá-la, esculpi-la, vivê-la. Mas não quero ser um mero apêndice de visores, tubos e agulhas. O progresso da tecnologia não deve beliscar o respeito pela dignidade de cada um, defendida e decidida pelo próprio e não sujeita à ditadura de outros. Seguramente bem intencionados, mas impondo uma visão das nossas pequenas vidas decorrente da sua ideologia sobre "A Vida". A minha vida pertence-me. Tentarei vivê-la de cabeça levantada e costas direitas até ao último instante, mesmo que para tal deva antecipá-lo. Já o disse e escrevi muitas vezes: tenho horror à hipótese de sobreviver a mim próprio. Afinal, à minha vida humana..."
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...numa situação de doença grave terminal dolorosa e onde eu não possa dispor da minha "vida", prefiro um fim digno e, quem sabe, se não glorioso, do que estar sujeito à maquina que me torna num vegetal mesquinho...
...não se trata de um "direito" a matar quem quer que seja; trata-se se um direito individual de dispôr da sua qualidade de vida, trata-se, em última análise, do direito a morrer...
...e para quem se refugia nos dogmas da catolocidade, eu diria que Jesus (filho de deus) Escolheu morrer e se Ele teve o "direito" a escolher o momento da Sua morte, porque não terei eu, Seu filho, o mesmo direito?...
...apêlo à possibilidade do mero suicídio? Não, de maneira alguma; apêlo apenas ao direito de uma morte com dignidade...
...serei capaz de a pedir para mim; mas, na verdade, não sei se serei capaz de a conceder a outrém... que os homens que têm acesso às leis e às máquinas, que os homens que têm acesso ao julgamento dos direitos e dos deveres, não julguem os outros mas coloquem-se somente no lugar do doente em dor terminal...
...em dia de Ressurreição, falou-se de Morte...
...talvez a Morte seja um novo Nascimento para algo que ainda não queremos admitir poder existir...
...talvez a Vida seja a própria Morte e esta nos conceda de quando em vez um intervalo para cá estarmos neste corpo a viver uma experiência para acumularmos os conhecimentos a caminho da sabedoria, a caminho da perfeição...

25/03/2005

erguido

...E as palavras me foram ditas num tom velado e misterioso; nada tinham de estranho mas não as entendia de todo... o tom quase que em melodia tocado por algo que não ouvia mas sentia... o sabor era doce e o travo não existia. E as palavras me foram ditas num sopro de alento e não, mas mesmo nunca, num lamento:
"...Não tenhas medo nem nada receies apesar do caminho ir ser doloroso; terá pedras em bico que te cortarão a alma e o corpo; mas não desistas porque no final encontrarás o que procuras; é lá, onde não sabes onde, que está a resposta. Caminha apenas e verás que num amanhecer ou num sol posto, mais nenhuma lágrima te cobrirá o rosto. Vai, vai sem medo porque tens em ti o suficiente para enfrentares qualquer desgosto..."
...E as palavras me foram ditas uma única vez; nunca mais as ouvi dizer... provavelmente não era suposto ouvir repetir tal sentença que viera de onde eu não sabia onde... como, não sei, mas ainda caminho de cabeça erguida e a sentir o vento afagar-me o rosto...

23/03/2005

certeza

"...tivesse eu a certeza de tudo e não estaria aqui; tivesse eu essa certeza que a incerteza não nos permite possuir e eu não estaria aqui... possuiria o dom da sabedoria do quando, do como, do onde e também do porquê e ainda do para quê... tivesse eu essa certeza que a incerteza não nos permite obter e eu estaria em ti e não em mim... possuiria o dom do ser e do estar onde me fosse dado querer e estaria no teu olhar; perder-me-ia no teu corpo e deixaria de me querer voltar a encontrar... labirinto fosses e eu palmilharia a eternidade sem me preocupar com a saída; fosse eu apenas uma centelha da tua respiração e tudo no mundo caberia na minha mão; fosse eu apenas o pulsar do teu pensamento e voltaria a ser apenas o vento... o vento sem lamento, o vento que me traria o sabor do aroma do teu corpo a ondular em mim, mesmo que fosse como um tormento, um doce tormento... tivesse eu a certeza de tudo e não estaria aqui... seria como a luz que como a uma borboleta tanto seduz... seria o tudo e o nada na totalidade absoluta do ser, seria isso tudo mesmo que não te pudesse ter..."

22/03/2005

flecha


...resta-me apenas esta seta que aponto para ti... estico o arco com elegância e um certo sabor a vitória... aponto-a ao teu coração... voa seta... e o alvo não demora... tem sim, tem uma história, um saber passado em direcção a um futuro incógnito... voa seta... mesmo para um alvo indómito... voa seta... voa rápida e em linha recta... explode-te no alvo... mas atinge-me a meta!...

21/03/2005

a saudável inveja

...escrevo em muitos lados e, felizmente, tenho amigos em muitos lados; conversamos e, às vezes, até nos encontramos e damos abraços uns aos outros entre palavras, risos e com os talheres à mistura numa mesa de um qualquer restaurante... eu amo todos estes meus amigos até mesmo aqueles que me invejam tão saudavelmente como, por exemplo, da forma que o M. se expressou:
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"...É verdade Quim. Invejo-te a entrega quando falas de ti próprio. Invejo-te a entrega quando falas dos outros, nós incluídos. Invejo-te a serenidade com que falas de amores passados. Invejo-te o entusiasmo por amores que virão. Invejo-te talvez por veres o mundo e a vida de uma forma que eu gostaria de ser capaz de ver e, talvez, nunca venha a consegui-lo. Invejo-te, portanto. O busílis disto é que, toda a vida me ensinaram que "invejar é feio" e lixa-me não ser capaz de responder cabalmente que, é mentira, há invejas que se devem ter!..."
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...um abração enorme para ti Miguel

19/03/2005

carta ao meu pai

"...breve, vais fazer 19 anos que já não estás cá, que já não estás a meu lado mas também não podes, não é ?... Estás noutro local, um local para onde foste já há algum tempo, um local de sossego, de paz, não é ?... Tenho saudades tuas, pai !... Lembras-te do dia em que partiste, do dia em que nos disseste até breve ?... Lembras-te dos dias em que sempre estiveste a nosso lado, lembras-te de tudo de bom que se passou antes de ires, lembras-te de tudo de mau que se passou antes de ires ?... Recordas o dia em que eu nasci, recordas o dia em que passaste ao estatuto de pai ?... Sei perfeitamente que te recordas e que só por isso te valeu a pena viveres; sei que viveste em função dos teus, daqueles que faziam parte da tua própria vida, daqueles que eram a razão da tua existência!... Sei muito bem o quanto sofreste por mim e por todos os teus; sei perfeitamente o quanto lutaste para que nada me faltasse, para que tudo estivesse sempre bem... Lembras-te do dia em que te faltou algo para que eu não sentisse essa falta ?... Lembras-te do dia em que não comeste para que eu tivesse comida ?... Lembras-te do dia em que poupaste nos cigarritos para que tivesse dinheiro para o meu tabaco ?... Lembras-te do dia em que tiveste de pedir a um amigo para teres dinheiro para mim ?... Lembras-te do dia, de todos os dias da tua vida em que passaste mal para que em todos os dias da minha vida eu passasse bem ?... Lembras-te ?... Vai fazer 19 anos que partiste... Hoje, dia 19 de Março é o dia do pai; o dia em que os filhos dão prendas aos pais; o dia em que os filhos beijam os pais com amor e carinho e lhe oferecem uma lembrança para lhes lembrarem que são pais e que só por essa razão vale a pena viver !... Hoje ainda é o teu dia, pai; só que nunca na vida te dei uma lembrança, meu pai; só que na vida que contigo e a teu lado vivi, eu nunca te dei uma prenda... E o meu remorso é a única prenda que hoje dia 19 te posso dar; o meu sentimento de desespero por nunca o ter feito, especialmente , pai , porque nunca tive a coragem de te dizer o quanto te amei !... E neste dia em que mais uma vez deveria ser eu a dar-te uma prenda, mais uma vez és tu a dar-me algo que sempre te pedi: o teu perdão!... Obrigado pai!..."

teu filho

17/03/2005

aragem

"...apenas tinha a veleidade de olhar, se assim se pudera chamar ao desejo de te ver ali... a luz que sobre ti incidia, nada distorcia nem a sombra nem a aura que te envolvia... apenas te tocava ao de leve, numa carícia... a porta aberta do quarto permitia ouvir o teu respirar lento, como se de uma leve aragem se tratasse onde mesmo não houvesse vento... desejei entrar e em ti me envolver, mesmo sem te ter... tentei tocar o intocável... estava ali e não consegui... fiquei pela dor da sensação de não sentir e restou-me apenas a veleidade de olhar e respirar o teu suave respirar..."

14/03/2005

ansiedade

...8 anitos deitados numa cama do hospital; o soro corre pelas veias; diz que está com fomita mas está também calma; aguarda a entrada na sala de operações; garganta, nariz e ouvidos; tudo muito simples mas ao mesmo tempo é sempre complicado; os pais vão fumando os nervos; aqui, o avô está ansioso mas sereno... vai correr tudo bem...

13/03/2005

coisas pequenas

Como quase todos sabem, vivo só, há cerca de 2 anos, em casa de minha mãe (que vai a caminho dos 90 anos) tomando conta dela; já antes, de 2003 a 2004 havia tratado de uma tia acamada com 92 anos; fui uma espécie de enfermeiro a 24 horas por dia e não foi nada fácil pois foi logo a seguir a um período grave da minha saúde por cirurgia à próstata... o tempo passa com as lides a que muitos não sabem o que são mas que também outros percebem o que quero dizer... é nos tempos em que não se tem essas lides que venho até aqui, ler, escrever, desabafar, sorrir e por vezes, (porque não?) chorar... não são lágrimas líquidas (que essas teimam em não sair), são mais aquele género de rio que se vai formando na Alma e que um dia, provavelmente, explodirá e uma cascata de qualquer coisa se formará... aprendi, ao longo da vida a "tentar" saber aceitar mas não é fácil... por isso, sorrio com os meus pardais, com o meu Black, com o meu gato, com as minhas rosas, com as palavras, com as palavras dos amigos... os filhos e os netos têm as suas vidas e de quando em vez lá nos encontrámos, ou numa festa de anos, ou num outro evento desse estilo... mas às vezes há pequenas coisas, coisas pequenas, muitas vezes uns breves minutos, que nos dão a razão de existirmos: e, como digo muitas vezes, o abraço é uma dessas pequenas coisas que dão sentido à vida... foi ontem ao fim da tardinha, estava eu aqui, quando de repente a casa é literalmente invadida pelos meus filhos, pelos meus netos e pelo meu genro e nora... não é muita gente, são apenas 7 (um número bonito) mas foram 7 abraços que me encheram de paz e me deram a alegria, por alguns minutos, de saber que, de vez em quando o silêncio deste local fica abalado pela contagiante balbúrdia da malta que é do nosso sangue!...
Quase nada tenho ou possuo porque como digo muitas vezes, não somos "donos" de nada; porém, e na verdade, eles são os "meus" filhos e os "meus" netos... Afinal de contas, sempre sou dono de coisas boas!...

11/03/2005

homenagear a vida

...lembrando o 11 de Março...
...porque a guerra nunca trará a paz...
...ficam as esperanças mutiladas...
...centelhas de vida apagadas...
...rosas cravadas pelo espinho...
...que não exista jamais o ódio...
...apenas porque amar é o caminho...

09/03/2005

aroma

"...encostei a minha cabeça em teu ombro e enlacei-te com os meus braços; deixei-te apenas um leve beijo na face; senti teus cabelos sedosos e o perfume da tua pele; inspirei o aroma do amor que havíamos feito e deixo-me num lento adormecer... jamais acordar... e ficar assim para todo o sempre..."

06/03/2005

sentir

"...sentir em mim o que sentes em ti... sentir em mim o que sentes por mim... sentires em ti o que sinto em mim... numa simbiose perfeita de fusão sem pragmatismo ou ilusão... apenas e só um saber que se sente, que se está, que se é... em perfeita consonância com o que somos no único desejo de sermos exactamente o que já fomos... num jogo de sabores e saberes; num jogo sem dores nem rancores mas de simples e tão somente ternos amores..."

04/03/2005

não

"...Não me disseste o que querias da vida e eu não pude dar-te o que pretendias. Não me disseste que o amor era tudo o que querias e eu que tão pouco dele sabia. Não me disseste que apenas querias carinho e não pude dar-te o que pretendias. Não me disseste que carinho era tudo o que querias e eu que tão pouco dele conhecia. Não me disseste que somente te bastava dar e não pude receber o que continhas. Não me disseste que te bastava amar e eu que tanto dele soubera apenas guardar. Não me disseste que te bastava sonhar e eu não te soube nos meus braços adormecer. Não me disseste que sentias tanta dor e eu que tanto tinha aprendido a sofrer. Não me disseste que te bastava um olhar meu e não te pude dirigir a luz dos meus olhos. Não me disseste que a luz te bastava e eu que tanto e tanto te amava. Não me disseste o que querias da vida e da vida eu nada te soube dar. Restou-nos a tristeza do adeus e as lágrimas dos nossos olhos a chorar..."

02/03/2005

peregrinar

"...amei, amo e amarei com garra, com força, com dor, com riso, com lágrima, com a palma da mão, com o doce beijo da alma e o calor do coração; amei, amo e amarei com o espírito, com fogo, com ar, com terra, com mar, com chão, com chuva torrencial, lama, vento ou mesmo num estado demencial; amei, amo e amarei com tudo o que fui, com tudo o que sou e com tudo o que serei, dentro de mim, sendo eu ou quem me habita, como quem grita, em ti, aí ou aqui..."