30/12/2004

natureza



...em finais de ano, a morte marcou presença no oriente (como marca todos os dias em toda a parte do mundo...) duma forma devastadora... que esta "imagem" simples, que de tão simples se torna complexa, assinale tão somente a certeza de que o Homem continua "verde" sentado num "chão" duro que não consegue dominar; porém, que o verde da maçã seja e possa continuar a ser o símbolo da esperança e que a madeira possa simbolizar o espírito que, apesar de todas as vicissitudes, não vergará nunca ao desejo de manter essa mesma esperança no cimo de todos os seus ideais...

29/12/2004

gostaria

Gostaria de vos dizer que tudo vai bem. Gostaria de vos dizer que tudo corre às mil maravilhas. Gostaria de vos dizer que o Homem vive feliz. Gostaria de vos dizer que a Humanidade está vivendo momentos de grandeza tanto física com intelectual ou mesmo espiritual. Gostaria de vos dizer que finalmente a fome acabou no Mundo. Gostaria de vos dizer que não há mais crianças chorando. Gostaria de vos dizer que não há mais pessoas sofrendo o isolamento. Gostaria de vos dizer que os homens de idade um pouco mais avançada sorriem. Gostaria de vos dizer que finalmente os governantes deste Mundo chegaram a acordo e que todos se uniram para desenvolver a paz, a ciência, o bem comum, a democracia, o abraço fraterno. Gostaria de vos dizer que a ONU engloba todos os Países do planeta. Gostaria de vos dizer que já não há guerra no Iraque. Gostaria de vos dizer que já não há fome. Gostaria de vos dizer que já não há barracas nos arrabaldes das grandes cidades. Gostaria de vos dizer que já não se vê mãos estendidas a pedir esmola. Gostaria de vos dizer que a Sida acabou, que a ciência irradicou para sempre a doença, que já não há necessidade de Hospitais. Gostaria de vos dizer que já não há prisões, que o crime acabou, que os homens já não precisam de roubar porque possuem bens. Gostaria de vos dizer que tudo o que nos rodeia é limpo, é ecológico, não faz mal à saúde. Gostaria de vos dizer que já não se matam focas, nem baleias, nem renas, nem ursos brancos, nem leões, nem tigres, nem homens. Gostaria de vos dizer que os rios já não estão poluídos e que as praias não estão sujas. Gostaria de vos dizer que se acabaram as discussões, e que o consenso é geral. Gostaria de vos dizer que já não há droga das escolas. Gostaria de vos dizer que os brinquedos não incluem os que podem induzir à violência. Gostaria de vos dizer que acabaram os assaltos, os raptos, as violações. Gostaria de vos dizer isto tudo mesmo sabendo que seria uma utopia... Gostaria.

Mas... não posso !

28/12/2004

time



...somewhere in this blog, a simple but mysterious "M.", wrote: "...Late in time but in nothing more..."

26/12/2004

realidade

...ainda há bem pouco tempo, há minutos, aterrei em mim mesmo e confirmei a minha "nudez" de tudo... indaguei o porquê das coisas e ainda me senti mais "vazio"; menos cheio de tudo e mais vazio de nada... o que ao fim e ao cabo nos faz estar na "terra" são os momentos em que sonhamos que não pertencemos aqui: - é nesses momentos que na verdade somos totalmente felizes...

22/12/2004

natividade



...este é o meu presépio... singelo... o suficiente para vos desejar a Todos, do fundo do meu coração, um FELIZ NATAL cheio de amor, porque Amar foi, é e será sempre o caminho...

19/12/2004

acordei 1 (primeira carta)

“...acordei por volta das 3 e 15 da manhã... sim, era isso... olhei para o relógio da mesinha de cabeceira e marcava 3 e 15... é um relógio daqueles de ponteiros luminosos. Olhei para o tecto sem saber porque razão acordara, mas lembro-me que talvez tenha ouvido a porta de um carro, lá fora, a bater ao fechar-se... olhei de seguida para os buraquinhos das frinchas da persiana da janela e divisei a luz da noite... a rua tem candeeiros e vê-se essa luz ainda que difusa mas vê-se. Senti o corpo morno e passei a minha mão pelos meus seios acariciando os bicos do peito. Deixei a minha mão descer pela barriga até sentir o meu sexo e desejei ter-te ali comigo... a minha mão acariciou os pelos púbicos e lentamente introduzi um dedo na minha vagina. Deixei-me estar assim durante uns momentos e lembrei-me de ti... lembrei-me de todos os momentos que te tive e que a meu lado te senti... Sabes, quando me abraçavas e me sentia pequenina, dessa forma mágica que tens de me abraçar... quando me beijavas e me sentia desfalecer ao sentir a humidade dos teus lábios... sabes, não sabes? Sei que sim. Lembras-te daquele dia em que nos encontramos pela primeira vez? O dia em que nos olhamos e os nossos corações bateram? Aquele dia mágico que marcou o resto dos outros nossos dias?
...Acordei sem saber por razão acordava mas penso que a saudade marca o sonho e, se calhar, estaria a sonhar contigo. Lembras-te daquele dia em que estavas sentado no sofá da nossa sala e me ajoelhei a teus pés? Lembras-te de termos feito amor na mesa da cozinha? Lembras-te daquelas férias que tivemos na montanha e lembras-te de certeza de termos feito amor deitados naquele chão branco de neve... lembras-te de, no fim, teres lavado o teu sexo com a fria neve que estava ao nosso lado? Lembras-te como ele ficou pequenino por causa do frio? Lembras-te como nos rimos às gargalhadas? E daquele dia que fizemos amor no carro? A meio deste um grito porque te aleijaste numa perna no travão de mão? Sim, porque não te haverias de lembrar, se eu me lembro tão bem... e daquela outra vez na praia, escondidos numa duna, quando eu fiquei cheia de areia...
...Acordei às 3 e 15 e já são 3 e 40!... 25 minutos a pensar nisto... sinto-te em mim, meu amor e não estás aqui presente... mas sinto-te... sei que sou eu que me acaricio mas é como se fosses tu... sinto como se fossem as tuas mãos, o teu corpo quente, o teu hálito a maçã que costumavas comer a toda a hora... eras doido por maçãs... nunca soube porquê... nunca considerei isso importante mas era importante para ti, não era? Os teus beijos quentes e húmidos num saltitar constante entre os meus mamilos e a minha boca. Como beijavas tão bem... mas sei que mesmo que beijasses mal, para mim era sempre bom, doce, quente, por vezes abrasador... como eu costumava dizer que acendias em mim o fogo da lareira sempre acesa... eu sei que fui sempre “louca” por ti mas tu sempre gostaste de mim assim... eu sei que sim... eu sentia que tu gostavas de mim assim... tu também eras louco, sabias? Sim, a tua loucura me incendiava e quando nos rebolávamos na cama parecia que tudo se partia e a cama chiava... como nós nos riamos disso... coisas giras e loucas, não eram? Meu bem, como me lembro de ti assim? Porque acordei eu a pensar em ti? Porque é que ainda penso em ti ou porque é que estou sempre a pensar em ti? Sabes que não há um único momento da minha vida que não pense em ti?
...Eu sei, eu sei que dizem que estou louca... mas eles não sabem que já não estou louca, já estive, sim já estive louca por ti... agora já não estou... estou feliz, triste mas feliz e tu sabes porquê, não sabes? Sabes, eu sei que sabes.
...Já são 4 da manhã. Acho que vou dormir um pouco. Penso que vou sonhar contigo e depois... depois voltar a acordar para pensar mais uma vez nos nossos dias felizes, nos dias que passamos juntos, naqueles dias em que a loucura era permitida e nada mais interessava... até ao dia em que te foste. Nunca soube porquê, porque me deixaste, porque não me quiseste mais... porquê, meu amor? O sono está a regressar... sabes, deram-me mais uma injecção e vou ter de dormir, sim? Eu vou dormir mais um pouco, meu amor... mais um pouco... mais um pouco... como ainda te amo... sim, serei sempre a tua Maria, meu amor... tua para sempre... para sempre...
a tua Maria..."

desejo



...desejo forte de um dia assim quando, neste Domingo cinzento, apenas olho para a chuva que cai aqui bem perto (e também dentro) de mim...

18/12/2004

completo

...no meu ventre não escondo nada... nem a noite nem a madrugada... no meu ventre guardo a mágoa... deste meu peito raso de água... no meu ventre explode o amor... que solto ao vento, se esvai... e em pélagos de sangue... no meu rosto ele cai... no meu ventre explode o amor... sentido, dorido, sofrido... amor passado, presente e futuro... no meu ventre escondo tudo... e com ele expludo... em míriades de estrelas... que vagueando pelos céus... enchem os olhos teus... no meu ventre escondo palavras... do meu ventre dou à luz as palavras... do meu ventre... de bem dentro de mim... me dou completo

não



...não é o Metro do Porto... mas gosto do "tom cinza" da foto...

17/12/2004

boletim clínico

...não foi possível salvar o olhito do Black... assim, ontem à tarde foi operado para se proceder à extracção do mesmo...
...encontra-se bem e em recuperação... ele agradece todas as vossas mensagens de apoio e carinho e envia-vos um sorriso de gratidão...

16/12/2004

inteligência pura

...tal como vos havia contado, no passado dia 20 de Setembro, o meu amigo Black foi atropelado por um outro animal que nem sequer parou apesar de ter dado pelo evento; na altura, e como existe aqui ao lado uma Clínica Veterinária, o Black foi lá internado e bem tratado; aos poucos lá foi recuperando e passado um mesito voltou ele novamente à "brincadeira" preferida que é andar a ladrar aos carros que passam; é um cão conhecido de toda a gente e todos gostam dele porque ele gosta de todos...
...ontem, de manhã (eu não estava em casa mas minha mãe me contou e depois vim a saber o resto) o Black surge aflito na cozinha aqui de casa, muito cansado, língua de fora e a pingar sangue; minha Mãe aflita gritou por ele mas ele deve-se ter assustado e então fez o seguinte:
- desceu as escadas, rumou ao portão, saiu para a rua e dirigiu-se à Clínica; subiu as escadas desta, entrou na sala de espera, entrou pelo corredor adentro e entrou na sala de consultas onde se encontrava a Médica de serviço; já junto dela, com a pata chamou-lhe a atenção e ela viu de imediato que o animal estava ferido!...
...ainda lá está em observação...
...falei agora com o Médico, o Dr. João, que me disse que provavelmente o Black vai ter de ser operado para extração do olhito traumatizado...
...o Black não pode ser preso a uma corrente; o Black é o espírito da liberdade e eu não o farei nunca; por outro lado, o próprio Médico diz que prefere ver o Black morrer atropelado, mas feliz, do que morrer aprisionado e infeliz...
...não conheço (nem os Veterinários conhecem) caso algum em que um animal tenha recorrido por si mesmo ao "seu" médico para ser tratado!...
...digam-me se isto não é um puro exemplo de pura inteligência...
...digam-me se não é motivo para amar ainda mais os animais...
...para todos vós, um sorriso do Black (porque apesar de tudo, ele está lá com um sorriso no focinho)

15/12/2004

beatriz



...e porque hoje, a minha netinha, faz 8 anos, como não podia deixar de ser, lhe deixo aqui um beijo enorme e uma das minhas preferidas rosas, a dourada, porque dourados são os seus cabelos...

13/12/2004

universos

…tenho “defendido” há já alguns anos, a ideia de que o Universo não é aquilo que nos dizem que ele é mas sim aquilo que eu digo que é! Isto nada tem a ver com presunção, tem a ver com a realidade que cada um de nós “fabrica”…Não és tu ou ele que me diz o que é a minha realidade ou a minha verdade, da mesma forma que ninguém me diz o que é ou como é o Universo; sou eu que “faço” o meu e cada um de nós “fabrica” o seu próprio Universo…O conhecimento que cada um de nós possui da realidade que nos cerca, é um “saber” individual (ainda que possua saberes colectivos) pois ele é obtido através dos nossos sentidos que transmitem ao nosso cérebro o que nos rodeia…Nada mais “objectivo” do que se afirmar que um invisual não “vê” e por muito que se lhe diga o que é a Lua, ele fará sempre um ideia por ele “fabricada” e nunca conceberá a “minha” Lua…A Lua que eu vejo não é a mesma que ele “vê”…Daí que, não existe um Universo único igual para todos; existem biliões de Universos, um para cada um de nós, um para cada ser que o vê, o cheira, o ouve, o saboreia e o sente…Não é difícil “provar” esta “tese”; parece que numa forma primária a simplista, todos estarão de acordo comigo, já que cada um tem a sua própria verdade, ainda que existam verdades universais (sei lá, por exemplo, o sol é uma estrela e está quieto, sendo os planetas que giram à volta dele…) elas não se “cimentam” universalmente na medida em que esse “saber” não é possuído por todos os seres humanos…Geneticamente trago comigo a memória dos genes de meu pai e de minha mãe; trago comigo alguns saberes mas outros foram adquiridos por mim e não por eles; criei os meus “dados”, elaborei as minhas “listagens”, fiz os meus “mapas”, etc., em tudo de uma forma muito diversa dos deles…Assim eu tenho o meu Universo e minha mãe, por exemplo, com quem vivo num mesmo espaço e num mesmo tempo, tem o Universo dela…O meu Universo tem galáxias; o Universo de minha mãe não tem…O meu Universo tem um satélite que gira à volta do meu planeta, que recebe a luz do sol e a reflecte para a terra; o Universo de minha mãe tem uma lua que vai crescendo e que tem luz à noite e que depois desaparece mingando aos poucos…O meu Universo tem sistemas estelares a milhares de anos-luz; o Universo de minha mãe tem pontinhos brilhantes que se acendem à noite e que estão ali em cima…O meu Universo tem o sentido da perspectiva; o Universo de minha mãe não tem…O meu Universo tem coisas imensas que não existem no Universo de minha mãe…Então, como pode ser?…O grande “problema” é que os nossos dois universos não se complementam nem interagem; pura e simplesmente não coexistem por serem diferentes; desta forma, pergunto como posso existir num Universo onde minha mãe não existe e, da mesma forma, como pode ela existir no meu?!...A que se deve então a existência de dois universos distintos se ambos possuímos idênticos sentidos? A resposta deverá estar, por certo, na aculturação de cada um de nós ou no acumular de conhecimento que cada um foi adquirindo… A pergunta seguinte será saber se o Universo é uma “forma” de conhecimento ou uma verdade universal?...

12/12/2004

mãe



...e porque hoje, minha mãe faz 89 anos, lhe ofereço uma rosa porque rosada ainda é a sua face; e ela fez questão de referir que uma das prendas que recebeu foi a vitória do seu amado F. C. Porto com a conquista da Taça Intercontinental...

10/12/2004

anil

"...no desespero da minha impotência febril duma vida gasta no mundo que me rodeia, eu vejo a tristeza estampada em teus olhos, cor de anil, azulados pelas mágoas sofridas num mundo perdido na dor que odeias; pela razão do existir, sem poder deixar de permitir que a vida dite as vindas e as idas nas lágrimas dum olhar pendentes, de certezas gastas e de vazios esgares...
...por não haver pão, nem ceias, nem lares...
...e aqui estou, febril de medo e de raiva, por não ter força, nem poder para o mal afastar, desaparecer...
...e aqueles teus olhos de anil olhar, fugidios de um afago, dum apelo, dum sorrir, quem sabe se dum dar, perseguem-me no perto do aqui estar, no longe do não saber partir e me ver ficar...
...sem nada fazer para aquela cor de anil, mudar..."

09/12/2004

obrigado

...um obrigado do fundo do coração a todas as pessoas que, duma forma ou de outra, por aqui, por mensagens ou por telefonemas, se associaram ao meu aniversário e me deram a alegria de me saber acompanhado, no mínimo, em espírito...

...para toda a gente o meu habitual terno e eterno abraço...

08/12/2004

birthday



...e porque hoje comemoro mais um ano de vida, venho aqui referir esse facto na expectativa de me ir lembrando sempre que ela, a vida, mais não é do que o que dela fizermos, o que dela quisermos e principalmente o que para ela escolhermos!... O meu terno e eterno agradecimento pela vossa habitual presença...

07/12/2004

ser

"...meditar um pouco, ainda que no bulício da vida ou no deambular dos silêncios que me cercam; meditar um pouco, mesmo que o vazio me preencha e nada me faça sentir que estou; meditar um pouco, ainda que o nada seja o tudo que procuro..."

06/12/2004

diurno

...queria tanto ser o mar... Para te sentir dentro de mim a nadar, esbracejando vigorosa e forte em longas braçadas de vida e respiração molhada... Para te sentir a pele gotejada da minha maresia em total contorno da tua existência e contínua persistência... Para teus lábios beijar com o sal ardente deste meu ser em contínuo movimento que de doirado e sedento se move para dentro... Para teu corpo desejar e em ondas te tornar e à minha volta te jorrar quando na cálida areia me espraiar... Para sentir o calor intenso do sol me banhar, aquecendo-me para que teu corpo não tremesse de frio ao em mim penetrar... Para teus seios ondular na massa informe do meu ser que de moldável e suave permite a ternura em mim nascer... Para sentir tuas fortes pernas afastar-me e em desenhos lindos e simétricos vencer a maleabilidade do meu ventre, para sempre... Para em gotículas me espalhar na tua vida em crescendo quando nua na praia secas teu corpo ao vento num lânguido movimento... Para te chamar e te ver correr para mim, a saltar, como gazela fugindo num monte de alguém que a quer caçar... Para te chamar e te sentir mergulhar de braços estendidos e de cabeça defendida, numa entrada sulcando meus sentidos... Para te aconchegar dentro de mim e com ternura te abraçar num longo e eterno movimento de loucura... Para viver o instante do meu único momento insano na procura do ser que me fizesse ver que mais não sou que o desejo de te ter...

...e retomado do fim de tanto prazer, depositar-te na areia doce e quedar-me duma vez por todas, ali, parado, para te ver!...

...Como eu queria ser o mar...

05/12/2004

leito



...ali em baixo, num outro comentário, Betânia pergunta porque razão a minha paixão por Tomar; que melhor razão poderá haver na que nos apraz tão somente recordar locais por onde a nossa "caminhada" prosseguiu um rumo, por onde os sons do passado ressoam ainda nos nossos corpos e nas nossas almas, por onde os sentidos remontam a milénios de vida, de vivências sofridas?... Para além disso tudo, Tomar contém "história", Tomar contém "magia" e sobremaneira, memória!...

04/12/2004

nocturno

...Em frente ao espelho da cómoda do teu quarto, sentada num banquinho forrado a tecido de cortinado vermelho, penteavas os teus cabelos, num ritual que funciona mesmo sem dares por isso... a escova passava ora uma, ora duas vezes, de cima para baixo e alisava os teus cabelos sedosos, cor de mel e de marfim... brilhavam no espelho e te revias momento a momento numa expectativa de mudança, o que não acontecia pois não podias ficar mais bela do que aquilo que já eras... a beleza em ti não residia nem morava ... era!... A tua camisa de noite, acetinada bege, de rendas sobre o peito alvo de seios firmes e redondos, deixava transparecer a cor da tua pele suave e doce ao olhar sem ser preciso tocar... a tua cama de lençóis de prata, aguardava o teu corpo numa ânsia lasciva de quem à noite, só, te espera num desespero de intocabilidade... e tu, demoravas... da cómoda tiraste um frasquinho de perfuma e te ungiste com ele o que provocou um agradável respirar a todos os móveis que te rodeavam... e a tua cama, ansiava pela tua presença... e o teu corpo demorava a conceder-lhe esse desejo... levantaste-te de frente do espelho e te miraste novamente de corpo inteiro e gostaste da tua imagem alva e bela naquele quarto iluminado pela tua presença... olhaste de soslaio e sorriste... sentaste-te na beira da cama e esta suspirou docemente perante a antevisão de que breve te possuiria.
Tiraste os teus pézinhos leves de dentro dos chinelos de cetim vermelho, levantaste um pouco o lençol e te entregaste total e lentamente ao prazer de estender do teu corpo e da entrega final ao teu leito... a tua cama nem sequer se moveu... aquietou-se para não te perturbar, para que não te arrependesses daquilo que acabaras de fazer, com medo que te levantasses e ela te voltasse a perder... a tua cama inspirou baixinho a fragrância do cheiro da tua pele e deixou-se ficar aguardando o teu próximo movimento... deitada de bruços te deixaste finalmente ficar e tua cabeça leve pousada de mansinho na almofada, arfava lentamente o teu respirar de prazer por mais uma noite de descanso e de sonhos...
Teus olhos semicerrados viram a lâmpada acesa e teu braço se estendeu ao interruptor da mesinha de cabeceira para a desligar; os teus movimentos eram propositadamente lentos para que o tempo demorasse ainda mais do que aquele que já existia... e a tua cama sentia... na obscuridade do teu quarto, teus olhos semicerrados olharam o tecto e se fixaram na sua alva cor que permitia uma réstia de luz no meio da escuridão... olhaste a janela e pelas frinchas da persiana, divisaste a luz cinzenta duma lua crescente... avizinhava-se uma noite de lua cheia e teu corpo descansou por um momento... a tua cama então suspirou e te abraçou fortemente... em suas mãos te acabavas de entregar... e o sono chegou.... adormeceste... não sei mais o que se passou... a noite decorreu, teu corpo diversas vezes se moveu... a tua cama não se movia, com receio de te acordar; abraçava-te sempre para não te deixar fugir... sentia-te sua e possuía-te num sonho imenso de impossibilidade, de impotência, de raiva, por não te conseguir ter tendo-te ali... tua mente adormecida, movia-se e sabia-se que sonhavas... a tua cama te tinha ali, indefesa, sozinha... sonhavas e eu aqui, nada mais te pedia... nada mais desejava...
Queria apenas ser o teu sonho...

03/12/2004

Tomar



...a pedido do Alexandre Narciso, mais uma vista daquela bela cidade...

mudar

Querer (crer) a mudança. Crer (querer) e mudar. Palavras que nos impõem posturas de altivez perante a vida. Quero, posso e mando! Logo, mudo! Porque quero. Porque creio. Mudar. Mas, mudar como? Apenas crendo (querendo)? Basta querer (crer)? É assim tão simples e tão fácil? O desejo deve superar tudo e todos? O nosso querer (crer) sobrepõe-se ao crer (querer) dos outros? Não, não creio (mas quero). Anseio. Desejo poder crer (querer). Desejo poder querer (crer) mudar. Mas a luta é dura, demasiadamente dura. As pedras do caminho derretem-nos a vontade de avançar. E apenas, lentamente, muito lentamente se consegue (querendo) crendo, ir. Apenas continuamos a perguntar: ir para onde? Se não sabemos o caminho?!... A resposta é sim fácil de dar: Basta caminhar! É isso que faço, não porque queira (creia) mas porque o tenho de fazer. Não posso parar, não quero parar; quero caminhar; não porque creia que caminhar deva ser feito mas porque quero caminhar; não porque queira caminhar mas porque creio que devo caminhar. E é esta duplicidade dentro de mim que me está destruindo: o querer (crer) e o não crer (querer); o ir e o ficar; o ser e o não ser. Dilema terrível que destrói. Magoa. Mata. Corrói. E, no entanto, amar é preciso. E, no entanto, sorrir é dever. E, no entanto, caminhar é crer (bolas, nunca querer!). Caminho porque creio. Sei-o!.

02/12/2004

aqui

...as pessoas crescem "suavemente" e "pragmaticamente"...

...disto eu não tenho dúvidas pois tudo o que cresci eu não notei...

...só agora noto e descubro que, apenas, cresci...

...não me senti crescer...


...não senti o tempo passar...

...não peguei no esqueleto e não reconstruí o corpo...

...apenas e tão simplesmente...

...aconteceu...

...estou aqui...

...no outro lado do esqueleto...

01/12/2004